ICAR – Paulo, os corintianos, os romanistas e o celibato.

abril 3, 2011 às 8:32 pm | Publicado em Blogroll, Uncategorized | 2 Comentários

Paulo, os corintianos, os romanistas e o celibato.

 

Maximiliano Mendes (2011).

 

Todas as citações Bíblicas foram retiradas da ARA.

 

1 Co 7 é um capítulo complexo de se entender e tem sido utilizado pelos romanistas como justificativa para se exaltar o estado celibatário, exigido de seus clérigos e tido como melhor e mais abençoado que o matrimônio: Se alguém disser que o estado matrimonial deve ser colocado acima do estado da virgindade ou do celibato, e que não é melhor e mais abençoado permanecer em virgindade ou em celibato do que se unir em matrimônio, que seja anátema (sessão 24, cânon 10 do concílio de Trento[i]).

 

Porém, isso entra em contradição com o que Deus diz em Gn 2:18 – Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.

 

Se não é bom que o homem esteja só, é ruim que ele esteja só, pelo menos de forma geral. Logo, não se pode dizer que é melhor e mais abençoado que ele esteja só, celibatário. Mesmo que se afirme que ao adotar o celibatarismo clerical o indivíduo não fique só, pois se casa com Deus e a Igreja, ou algo do tipo, esse argumento cai por terra por dois motivos. O primeiro é que a Igreja já é a noiva de Cristo, composta de solteiros e casados…

 

O segundo motivo é que, de acordo com Gn 3:8, Deus passeava no Éden, ou seja, já fazia companhia a Adão. Portanto, o tipo de solidão à qual o texto se refere é a solidão em termos de ter ou não uma companheira humana, por isso o Senhor criou uma mulher para que fosse ajudadora do homem e não outro amigo celibatário. Se ser celibatário fosse algo tão superior quanto se alega, tomando a piada emprestada, talvez Deus tivesse criado Adão e Ivo, quem sabe até hoje o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não tivesse sido comido…

 

Ademais, sabemos por experiência prática do dia-a-dia que, se por um lado é verdade que de forma geral um solteiro tem mais tempo disponível para se envolver na obra, em trabalhos e funções na Igreja, dizer que ele é mais santo é um equívoco, pois, por exemplo, um casal também pode investir grande parte de seu tempo e se santificar participando de ministérios familiares e na própria formação Cristã dos filhos, edificação mútua, dando bom testemunho aos vizinhos e etc. (Sendo a família o próprio “laboratório”).

 

Outro detalhe freqüentemente negligenciado é o seguinte: se o tempo disponível para a obra é proporcional à santidade, deveríamos parar de trabalhar também caso quiséssemos ser mais santos. Espero que o leitor já tenha percebido até que ponto se pode ir com essa mentalidade ascética extremista. Vários clérigos romanistas realmente não trabalham, mas nem Paulo era assim, pois produzia tendas (Atos 18:1-4). Seriam então esses clérigos romanistas mais santos do que Paulo? Do que Pedro, que ainda por cima era casado? Paulo então era definitivamente mais santo do que Pedro? Outro exemplo é o do profeta Samuel, que foi dedicado ao Senhor (1 Sm 1:28), no entanto era casado (1 Sm 8:1-2 indica que ele tinha filhos).

 

Em resumo: o Cristão autêntico tenta refletir Cristo e servir a Deus em tudo o que faz 24 h por dia, em casa e no trabalho, independente de ser solteiro, casado, ter trabalho ou não. Ter mais tempo para evangelizar e sair em missões é uma coisa, ser mais santo e abençoado é outra. Cada tipo de indivíduo tem sua vocação e enfrenta suas dificuldades. Para o celibatário seria o domínio próprio (1 Co 7:9), para o homem casado, cuidar da esposa de forma abnegada (Ef 5:25) e para quem tiver filhos, cuidar bem da criação deles (1 Tm 3:4). Seriam essas coisas triviais e mundanas? Não. E para isso todos devem se santificar e usar suas vocações em prol da obra missionária e edificação da Igreja.

 

Porém, verdade seja dita: ao lermos 1 Co 7 temos a impressão de que, para Paulo, o casamento é apenas uma opção para se evitar a imoralidade sexual[ii] e, assim, a Bíblia confirmaria as crenças romanistas. E não é só isso, no começo do capítulo ele deixa claro que os cônjuges têm obrigações mútuas (vs. 3 – 5), e então no v. 29, diz que os casados deveriam ser como se não o fossem! Há algo muito estranho aqui…

 

Mas como Paulo não pode contradizer Gn 2:18, o conjunto geral dos ensinamentos Bíblicos sobre o estado matrimonial e nem o que sabemos observando as coisas no dia-a-dia, como resolver esse problema, se a Bíblia é inspirada e inerrante? (Para quem acredita na inerrância, claro).

 

Os conselhos de Paulo e os mandamentos do Senhor

 

Paulo era um homem educado, um fariseu (Atos 23:6), tinha conhecimentos sobre o conteúdo das Escrituras e escreveu inspirado pelo Espírito Santo de Deus. Logo, aquilo que foi inspirado indica o melhor caminho a ser seguido, não necessariamente para todas as situações, mas pelo menos para situações específicas ou nos apontar para alguma direção. Em 1 Co 7, vemos que Paulo deixa claro quando emite uma opinião pessoal, mas inspirada, (vs. 7, 12, 25 e 40) e um mandamento do Senhor (v. 10).

 

É importante que logo de início tenhamos o cuidado de distinguir essas instruções, pois caso não o fizermos, podemos descontextualizar a situação e daí surgirão erros de interpretação com conseqüências potencialmente desastrosas.

 

Por exemplo, no v. 7 Paulo diz: Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou; no entanto, cada um tem de Deus o seu próprio dom; um, na verdade, de um modo; outro, de outro. Se descontextualizarmos o comentário (e não comando!) como creio que os romanistas fazem, poderíamos chegar a conclusão de que sempre o ideal é que todos fossem solteiros/celibatários e entraríamos em contradição direta com Gn 2:18, 1 Tm 5:14 (onde Paulo recomenda às viúvas jovens que se casem) e 1 Tm 3 (mais especificamente os vs. 5 e 12). Porém, como o texto é inspirado, mesmo sendo uma opinião, o que temos de tirar daí que é válido universalmente? Que nossos desejos estão abaixo da vontade de Deus: Paulo desejaria, talvez por achar que sabe o que é melhor para si, para os outros e para o Reino, que todos fossem como ele, mas reconhece prontamente que Deus dá dons específicos a cada membro do corpo, para que cada um possa fazer sua função, um, na verdade, de um modo; outro, de outro, ou seja, o dom se “expressa” ou é utilizado de maneira distinta dependendo do individuo. É simples entender isso: tanto Paulo quanto Pedro tinham o dom apostólico[iii] mas Paulo era solteiro e viajava só, ao passo que Pedro viajava com a esposa (1 Co 9:5)[iv]. Paulo também tinha o que se pode chamar de dom missionário (Ef 3:7-8)[v]. Há missionári@s solteir@s e casad@s[vi].

 

Assim, a idéia desse artigo é mostrar que é melhor interpretar 1 Co 7 entendendo que os conselhos que Paulo dá são para aquele contexto em particular, e não que sejam válidos universalmente. Em princípio sempre temos de ter em mente a expressão “angustiosa situação presente” (v. 26) e também compreender três coisas: o contexto da cidade de Corinto, o que é preterismo parcial, e o que o historiador Ben Witherington III chama de linguagem da iminência, utilizada por Paulo.

 

O contexto de Corinto:

 

De acordo com Horsley (1998), no tempo em que Paulo escreveu essa carta, a cidade, um centro comercial, estava sob o domínio romano, e sua população consistia em grande parte de cidadãos romanos de classe baixa e ex-escravos. 1 Co 1:26 é evidência  disso: Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento. Soa mal, mas como diria o Kiko, os corintianos eram uma “gentalha”. Acredita-se que Paulo tenha ficado aproximadamente de 50-51 DC na cidade. Já a carta, pode ter sido escrita em 53, 54 ou 55, quando Paulo estava em Éfeso[vii].

 

Dentre os vários deuses para os quais os cidadãos prestavam cultos, estavam Afrodite e Ísis (essa, egípcia), deusas da fertilidade. Apesar de ser um ponto polêmico, contestado por pesquisadoras tidas como feministas, é possível que os rituais dedicados à Afrodite, em Corinto, envolvessem práticas sexuais[viii]. “Corintiana” chegou a ser um termo pejorativo usado em Atenas para se qualificar alguma mulher sexualmente[ix].

 

Assim, uma das coisas mais importantes a se destacar sobre essa cidade é a imoralidade. Em 1 Co 5:1 lemos: Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. Os comentários Bíblicos, em geral, também destacam essa particularidade[x],[xi]. Concluímos então que Paulo não estava escrevendo essa carta tendo como foco jovens virgens inocentes, mas sim pessoas que em sua maioria já haviam tido suas experiências sexuais fora do matrimônio e sejamos francos: uma vez tendo experimentado o negócio, fica difícil não querer mais. E sendo difícil não querer mais, dificilmente o pessoal estava conseguindo se abster, pois como o texto indica, eles estavam pelo menos no nível dos pagãos em termos de libertinagem sexual.

 

Mais um exemplo é o trecho em 1 Co 6:12-21, onde, talvez Paulo esteja escrevendo em resposta ao pensamento de alguns cínicos. Apesar de pregarem a busca pelo desapego às coisas materiais, inclusive afirmando que o casamento seria uma distração nessa direção, alguns desses filósofos achavam que não havia grandes problemas em liberar as paixões sexuais em prostitutas[xii], algo que possivelmente estava sendo feito por alguns Cristãos corintianos!

 

Atrelados ao problema da imoralidade, também se sabe que os Corintianos eram carnais e imaturos:

 

  • 1 Co 3:1-3 – 1Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. 2Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais. 3Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?
  • 1 Co 11:20-21 – 20Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. 21Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague.

 

Você acharia conveniente entregar sua filha em casamento a um corintiano daquele tempo? Deixaria sua filha ou filho casar com alguém ainda impregnado de imoralidade? Provavelmente não, e por isso Paulo fala em 1 Co 7:1 que é bom que o homem não toque em mulher, e no v. 38: … quem casa a sua filha virgem faz bem; quem não a casa faz melhor. Quando se entende o contexto, a angustiosa situação presente, e notando que nesse segundo caso Paulo não está emitindo um mandamento do Senhor, rapidamente se dispersa qualquer interpretação errônea que nos leve a pensar que a melhor decisão do mundo é manter as filhas solteiras e castas, talvez num convento.

 

Se por um lado muitos não estavam conseguindo se segurar, outros estavam, mas sendo extremistas. Sabemos por experiência prática que, algumas vezes, quando alguém cuja vida era muito desregrada se converte, procura se manter o mais longe possível das coisas que têm a ver com o estilo de vida anterior. Assim, é muito comum vermos aquel@s santarrões nas igrejas achando que tudo é perversão, às vezes, até o sexo dentro do casamento. É até interessante destacar que dois dos grandes responsáveis pela exaltação do celibato no romanismo foram Agostinho de Hipona, ex-libertino, e Jerônimo, ex-homossexual[xiii].

 

Vemos então que algumas pessoas acabam se tornando extremistas como uma espécie de mecanismo de defesa. Também havia esse tipo de Cristãos em Corinto, tanto é que Paulo tem de lidar com os casos do pessoal que estava cogitando se divorciar do cônjuge não Cristão (1 Co 7:10-16) e outros que queriam se abster das relações sexuais lícitas dentro do matrimônio (1 Co 7:5).

 

Aliás, sobre isso, antes de prosseguirmos é bom mencionar que quando Paulo diz que concede alguma coisa em 1 Co 7:6, ele está se referindo ao que havia mencionado no versículo anterior, e não do v. 1 ao 5, ou seja, abstinência temporária[xiv]: 5. Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência. 6. E isto vos digo como concessão e não por mandamento.

 

Além disso, no próprio versículo 1 pode  ser que Paulo não esteja dando sua opinião diretamente “é quase certo que ele esteja citando a opinião de seu correspondente, cujos ideais e práticas sexuais ele [Paulo] não apóia” e uma tradução alternativa desse trecho poderia ser: “Em relação aos assuntos que vocês mencionam em sua carta. Vocês dizem: é uma coisa boa o homem não ter relações com uma mulher. Eu digo: cada homem deveria ter sua própria esposa e cada mulher seu próprio marido, por causa dos perigos da prostituição[xv]. Também é interessante notar que provavelmente, os correspondentes principais nos vs. 1-16 eram mulheres adeptas do ascetismo[xvi]. De novo vemos que ao estudarmos o contexto, entendemos com mais facilidade o texto e eliminamos interpretações errôneas, como as dos romanistas.

 

Seja como for, talvez o leitor também concorde que as pessoas acostumadas a uma sexualidade distorcida também devessem se resguardar, pelo menos por um tempo, enquanto passam por um processo de crescimento espiritual. Especialmente se tiver interesse em se casar com a sua filha virgem!

 

Além do problema sexual, temos mais. A angustiosa situação presente também pode se referir às várias situações adversas que os Cristãos estavam enfrentando (cf. 2 Tm 3:12), como a perseguição em Roma durante o governo de Nero. Podem ser somados a isso os agravantes corintianos e também podemos considerar um evento de fome em Corinto.

 

De acordo com Blue (1991), sabe-se que de tempos em tempos havia escassez de grãos na cidade, o que exigia a eleição de um superintendente do suprimento de grãos (curator annonae). Blue nos informa que durante o ano 51, foi eleito um superintendente chamado Dínipo, enquanto Gálio era governador da Acaia/Aquéia (província cuja capital era Corinto)[xvii]. Como já vimos, é provável que Paulo tenha estado na cidade durante os anos 50 e 51. Pode ser então que uma escassez de grãos ou uma ameaça iminente disso acontecer tenha contribuído para que a situação fosse angustiosa.

 

Uma possível objeção seria o fato de que na segunda carta de Paulo aos Coríntios, nos capítulos 8 e 9, nos é relatado que eles estavam ajudando os Cristãos necessitados da Judéia com recursos. Porém, note que Paulo escreveu 2 Coríntios aproximadamente um ano após a primeira carta[xviii], e talvez, em um ano, a situação pudesse ter se normalizado ou então a escassez não chegou a acontecer de forma tão séria. Ademais, não se diz qual foi o tipo de recurso ofertado e também não é impossível que alguém necessitado ajude outro em condições piores. Assim, um evento de fome pode permanecer como fator contribuinte atinente à situação angustiosa à qual Paulo se refere no v. 26.

 

Até agora temos então que os Cristãos de Corinto viviam em um ambiente de imoralidade sexual, eles mesmos ainda eram imorais e, como os métodos contraceptivos do passado não eram tão eficientes como os atuais, as mulheres engravidavam com mais facilidade. Ter filhos em condições adversas não é a coisa mais recomendável do mundo, o contrário é que é. Deus sabe muito bem disso e por isso ordena a Jeremias em Jr 16:1-4 – 1 Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: 2 Não tomarás mulher, não terás filhos nem filhas neste lugar. 3 Porque assim diz o SENHOR acerca dos filhos e das filhas que nascerem neste lugar, acerca das mães que os tiverem e dos pais que os gerarem nesta terra: 4 Morrerão vitimados de enfermidades e não serão pranteados, nem sepultados; servirão de esterco para a terra. A espada e a fome os consumirão, e o seu cadáver servirá de pasto às aves do céu e aos animais da terra. Talvez Paulo estivesse fazendo suas recomendações baseado em parte no conhecimento desse trecho.

 

Prosseguindo, ainda no âmbito das adversidades, ao ler o Novo Testamento, muitas vezes você irá ver esses termos como “angustiosa situação presente” (1 Co 7:26), “o tempo se abrevia” (1 Co 7:29) e etc. (Veja também Rm 13:11-12 e Fp 4:5). Notamos que esses trechos têm natureza escatológica e é isso o que discutiremos a seguir.

 

O preterismo parcial e a linguagem da iminência:

 

Basicamente, o preterismo parcial é a visão de que várias (mas não todas!) as profecias referentes ao chamado fim dos tempos já foram cumpridas. Mais especificamente, muito do que se profetizou foi cumprido com a destruição de Jerusalém no ano 70 DC[xix]. Logo, isso justificaria o fato de que o Espírito Santo inspirou os autores Bíblicos a se comunicarem em alguns trechos, como 1 Co 7:29, utilizando essa linguagem ansiosa, pois no período de alguns anos, o mundo passaria por uma grande tribulação e os Cristãos deveriam se empenhar na obra evangelística, com o objetivo de trazer o maior número possível de vidas para Cristo.

 

Em seu livro Jesus, Paul and the end of the World, o historiador Ben Witherington III nos diz:

 

Considere por um momento a seguinte possibilidade. Suponha que Paulo não sabia e nem pretendia saber a hora da segunda vinda, mas achava possível que seria logo. Suponha também que ele não sabia que iria morrer antes da parousia. Se ele não sabia a hora da parousia ou da sua própria morte, não poderia assumir que morreria antes dela. Isso quer dizer que a única categoria na qual ele possivelmente poderia se enquadrar quando comentava sobre a parousia era a dos vivos (dada sua ignorância sobre a hora de ambos os eventos). Paulo não poderia ter dito: “Nós que vamos morrer antes da parousia”, porque isso pressupunha que ele sabia que a parousia ainda ia levar um certo tempo. O ponto é: ele simplesmente não sabia a hora desses eventos e, assim, tinha de se preparar e alertar seus convertidos porque a parousia poderia vir logo[xx]. […] A confirmação da validez desse argumento vem no que segue imediatamente (1 Ts 5:2-11). O Dia do Senhor é descrito como algo que vem como “um ladrão na noite”[xxi].

 

Ou seja, devido à angustiosa situação presente e por questões de precaução é que Paulo escrevia da forma que lemos e isso inclui a recomendação da vida de solteiro a quem tivesse essa vocação.

 

A natureza escatológica em 1 Co 7 é clara no trecho localizado nos vs. 29-31. Paulo está opinando (ele deixa isso claro no v. 25), dentre outras coisas, que os casados sejam como se o não fossem. É muito difícil crer que ele estivesse contradizendo o que havia dito nos vs. 3-5. De acordo com Horsley (1998), expressões como “o tempo se abrevia” se referem ao iminente desaparecimento do sistema econômico e formas sociais básicas, nesse caso, o casamento patriarcal e os aspectos emocionais atrelados a ele[xxii]. Logo, talvez o que ele quis dizer é que era para viver como se não fossem casados daquela forma. É uma possibilidade, inclusive porque o uso da linguagem onde se invertem as relações normais está de acordo com várias expectativas tradicionais dos Judeus para o fim[xxiii]. Um exemplo muito bom é o trecho em Joel 2:28-32.

 

Outro ponto em que ele parece se contradizer é quando diz que os casados estão divididos quanto às coisas do Senhor e as “coisas do mundo”, o sentido pejorativo também deve ser entendido como sendo específico para o contexto de Corinto e dentro de uma perspectiva escatológica, pois como já foi mencionado algumas vezes, o que Paulo diz em Ef 5:25 e 1 Tm 3:4 não pode ser tomado de forma pejorativa, mundana, e também devemos ter em mente que para Paulo, naquela situação, o objetivo primordial era ganhar o maior número de almas possível para Cristo (1 Co 9:19).

 

Logo, reiterando, para quem crê na inerrância Bíblica, a solução é a de que esses conselhos que Paulo (e não o Senhor!) oferece são específicos para o contexto de Corinto, tanto é que não vemos nas cartas subseqüentes tanta ansiedade quanto a esse tópico. A inferência é que temos um conselho no qual Paulo alerta para a necessidade de os Cristãos imorais, carnais e imaturos de Corinto se consagrarem e se dedicarem à obra missionária, pois infelizmente a situação presente era mesmo angustiosa.

 

CONCLUINDO…

 

Concluindo, foram oferecidos vários argumentos para se crer que não há base Bíblica para se crer que o estado celibatário seja melhor e mais abençoado que o matrimonial, por mais que se queira exaltar o clero romanista. 1 Co 7 deve ser entendido como consistindo de conselhos específicos para aquela comunidade, caso contrário, surgem problemas e contradições Bíblicas. Você decide: prefere crer na inerrância Bíblica ou no magistério romanista? Que diz que os clérigos estão num estado melhor e mais abençoado que o seu, mesmo que você seja um Cristão (ou Cristã) sincero e dedicado a servir a Deus e à sua família? Mesmo que você e seu cônjuge estejam envolvidos nos ministérios familiares da igreja romana? Se eu fosse você sairia dessa e adotaria o Cristianismo Bíblico.

 

Adendos:

1. O celibato é um dom mesmo?

 

Creio que a finalidade dos Dons do Espírito Santo de Deus seja a edificação da Igreja. Quando comecei a ler para escrever esse artigo, estava convencido, como muitos, de que o celibato seria um desses Dons. Porém, mudei de idéia. Primeiro porque ser solteiro ou casado não necessariamente edifica a Igreja. Há bons clérigos celibatários (John Stott, por exemplo) e bons clérigos casados. Isso não quer dizer nada. Ademais, se ser celibatário é um dom ser casado também é, então se continuarmos expandindo as vocações desse jeito, tudo vai virar Dom do Espírito, ganhar dinheiro, estudar muito e etc.

 

Agora, um motivo ainda melhor pra se crer que o celibato não seja um Dom do Espírito é o seguinte: pra que o Espírito Santo de Deus estaria concedendo esse Dom aos monges budistas?

 

Assim, pensemos, ou só se obtém os Dons do Espírito graças ao Espírito, ou se pode obter por conta própria, logo, qualquer pessoa de perseverança poderia também curar os enfermos, falar em línguas estrangeiras, profetizar… Dessa forma, creio que o Dom ao qual Paulo se refere em 1 Co 7:7 é o Apostólico ou o missionário, já mencionados no texto.

 

Outro trecho utilizado para se crer que o celibato é um Dom é Mateus 12:19, mas note o que Jesus diz, com os comentários entre colchetes: Porque há eunucos de nascença [pode estar se referindo às disfunções hormonais ou ao perfil psicológico, como os monges budistas]; há outros a quem os homens fizeram tais [castrados em geral]; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus [os que se castraram, tipo Orígenes, ou mesmo os que acham melhor dedicar a maior parte de seu tempo à obra evangelística]. No trecho, Jesus não diz que o Espírito Santo está concedendo esse Dom.

 

2. Rá, mas Jesus era celibatário!

 

Era, mas por outro motivo: Jesus não poderia se unir em uma só carne com uma pecadora, pois se fizesse isso não poderia se oferecer em sacrifício pelos nossos pecados como Cordeiro Imaculado de Deus.

 

3. Mas Jesus disse que a gente tinha de abandonar nossas famílias e segui-lo!

 

http://www.tektonics.org/gk/jesussayshate.html

4. Talvez Paulo ainda fosse casado no tempo de seu ministério.

 

Pois é. Eusébio (livro 3 capítulo 30) menciona algo interessante:

 

1. Clement, indeed, whose words we have just quoted, after the above-mentioned facts gives a statement, on account of those who rejected marriage, of the apostles that had wives. Or will they, says he, reject even the apostles? For Peter and Philip begot children; and Philip also gave his daughters in marriage. And Paul does not hesitate, in one of his epistles, to greet his wife, whom he did not take about with him, that he might not be inconvenienced in his ministry. Em seguida ele menciona sobre o martírio da esposa de Pedro (http://www.newadvent.org/fathers/250103.htm).

 

Alguns acham que essa mulher é mencionada em Filipenses 4:3, seria a quem Paulo se refere como “companheiro fiel”. Algo a se pensar.


[ii] Laughery, GJ. Paul: AntiMarriage? Anti-Sex? Ascetic? Disponível em: http://www.greglaughery.com/docs/paularticle.pdf.

[iii] Efésios 4:11 nos diz que esse é um dos dons.

[iv] Até a enciclopédia católica aceita que Pedro era casado e tinha filhos: http://www.newadvent.org/cathen/11744a.htm.

[v] Wagner, CP. Se não tiver amor… Luz e Vida. 1982. p. 18.

[vi] O @ é usado para se referir ao o(a), os(as).

[ix] Keener, CS. 1-2 Corinthians: The new Cambridge Bible Commentary. Cambridge. 2005. p. 58.

[x] Keener, CS. 1-2 Corinthians: The new Cambridge Bible Commentary. Cambridge. 2005.

[xi] Horsley, RA. 1 Corinthians: Abingdon New Testament commentaries. Abingdon. 1998.

[xii] Keener (2005). p. 63.

[xiii] Ellens, JH. Sex in the Bible: a new consideration. Praeger. 2006. pp: 8-9.

[xiv] Fitzmyer, JA. First Corinthians. Yale University Press. 2008. p. 281.

[xv] Citações indiretas retirada de: Gillard, D. Deconstructing the Bible: a consideration of the interpretive possibilities inherent in deconstructionist readings of the biblical text such as those offered by feminist hermeneutics. 1991. Disponível em: http://www.educationengland.org.uk/articles/12deconstruct.html.

[xvi] Horsley (1998). p. 109.

[xvii] Blue, BB. The house church at Corinth and the Lord’s Supper: Famine, food supply, and the present distress. Criswell Theological Review. v5(2). (1991). pp:221-239. Disponível em: http://faculty.gordon.edu/hu/bi/Ted_Hildebrandt/NTeSources/NTArticles/CTR-NT/Blue-HouseChCorinth-CTR.htm

[xviii] De acordo com as informações fornecidas pelas Bíblias de estudo NTLH e NVI.

[xix] Como o objetivo aqui é outro e uma discussão sobre preterismo irá exigir muitas páginas, sugiro a leitura do resumo disponível aqui: http://www.tektonics.org/esch/pretsum.html.

[xx] Witherington, B. Jesus Paul and the end of the world. IVP Academic. 1992. p. 24.

[xxi] Ibidem. p 25.

[xxii] Horsley (1998). p. 106.

[xxiii] Keener (2005). p.68.

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2 Comentários »

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  1. Meu caro Maximiliano. Espero que vc ainda poste as respostas em seu blog. Vi com muito entusiasmo as explicações que vc deu sobre diversos pontos das Escrituras, em especial sobre os irmãos de Jesus, sobre Maria, sua mãe e outros tópicos por demais interessantes. Sou um simples leitor e pretenso estudioso da Biblia. Gostaria que vc me explicasse uma questão, se possível, que me indagaram certa vez e não pude explicar, é lógico, pela minha falta de conhecimento no assunto: Existe diferença entre a Biblia de Jerusalem, aquela onde faço meus estudos e leituras e uma Biblia utilizada pela Igreja Protestante ?
    Pra mim, é tudo uma coisa só: A Biblia, certo ?

  2. Gostaria que vc comentasse sobre Horus e Isis também na qual senti muita falta no artigo “Cópia Cópia…”. Pois Zoroastro, Mytra e Horus, Osiris e Isis principalmente são os que mais se provoca discussões, além do que há inumeros documentarios na internet sobre, inclusive gostaria que você desse uma olhada em especial neste, http://www.youtube.com/watch?v=Lrof15jN4oc&feature=related
    pois acho muito importante discutirmos e colocar seus pontos de vista.


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