DEUS FAZ OS OUTROS DE BESTA? OU: O VAI NÃO VAI DE BALAÃO.

novembro 15, 2007 às 3:53 pm | Publicado em Blogroll, Uncategorized | Deixe um comentário

DEUS FAZ OS OUTROS DE BESTA? OU: O VAI NÃO VAI DE BALAÃO.

 

 

As desventuras do Livro de Balaão, filho de Beor. Ele era um vidente divino.

 

Balaão surgiu pela manhã;

Reuniu os chefes da assembléia em torno de si,

E por dois dias jejuou e chorou amargamente,

Então seus amigos íntimos vieram em sua presença,

E disseram para Balaão, filho de Beor:

Por que você jejua, e por que você chora?

Então ele disse lhes disse:

Sentem-se, e irei relatar para vocês o que os deuses-Shaddai [shaddayyin] planejaram,

E vão, vejam as obras dos deuses!

 

Trecho das Inscrições em gesso de Deir Alla, Jordânia, descobertas em 1967, a 40 km das planícies de Moabe. Data de ~800-700 A.C. [1]

 

A inscrição acima se refere a um sujeito chamado Balaão, que aparece pela primeira vez na Bíblia no livro de Números capítulo 22, onde supostamente existem erros, e aí já viu né… acusações de que Deus não existe e tudo o mais… É imprescindível que você leia pelo menos Números 22, 23 e 24 antes de começarmos nossa análise.

 

Porém, antes de entrarmos no tema em si, vamos assistir o vídeo a seguir pra entrar no clima do negócio: Clique aqui, ou aqui.

 

Quem era Balaão?

 

Em resumo, ele era um adivinho famoso naquela região, visto que como indicado no início do texto, há referências extrabíblicas mencionando algo sobre ele (Lembre-se que a adivinhação é uma prática condenada pelo Senhor em Levítico 19:26, por exemplo). Veja o que a Bíblia ainda diz sobre Balaão em (ele também é mencionado em outros locais):

 

  • 2 Pedro 2:15-1615Andam perdidos porque se desviaram do caminho certo. Seguem o caminho de Balaão, filho de Beor, que cobiçou o dinheiro que ia receber fazendo o mal 16e foi repreendido por causa do seu pecado. Pois uma jumenta falou com voz humana e acabou com as loucuras do profeta.
  • Judas 1:11 – Ai deles! Seguem o mesmo caminho de Caim. Por causa de dinheiro, eles se entregam ao mesmo erro de Balaão. E, como Corá se revoltou e foi destruído, eles também se revoltam e serão destruídos.
  • Apocalipse 2:12-17 – 12– Ao anjo da igreja de Pérgamo escreva o seguinte:
  • “Esta é a mensagem daquele que tem a espada afiada dos dois lados. 13Eu sei que vocês moram aí onde está o trono de Satanás. Vocês são fiéis e não abandonaram a fé que têm em mim, até mesmo quando Antipas, minha testemunha fiel, foi morto aí em Pérgamo, onde Satanás mora. 14Mas tenho algumas coisas contra vocês: há entre vocês alguns que seguem o ensinamento de Balaão, que mostrou a Balaque como fazer com que o povo de Israel pecasse, dizendo que os israelitas deviam comer alimentos oferecidos aos ídolos e cometer imoralidades. 15Assim também estão entre vocês alguns que seguem os ensinamentos dos nicolaítas. 16Arrependam-se! Se não, eu logo irei até aí e, com a espada que sai da minha boca, lutarei contra essa gente.
  • 17“Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas.
  • “Aos que conseguirem a vitória eu darei do maná escondido. E a cada um deles darei uma pedra branca, na qual está escrito um nome novo que ninguém conhece, a não ser quem o recebe.”

 

Ao que tudo indica, a reputação dele não era das melhores: Um idólatra ganancioso. Todavia, aparentemente, ele realmente tinha contato com algum tipo de “divindade”, haja vista o fato de Balaque dizer em Números 22:6 que ele tinha certo poder de amaldiçoar os outros: Eu sei que, quando você abençoa alguém, esse alguém fica abençoado e, se você amaldiçoa, fica amaldiçoado.

 

Capa de um livro sobre Balaão: Um profeta atrás de lucro.

 

E qual é o problema afinal?

 

O problema, lendo Números 22, é que à primeira vista o texto nos dá a entender que Deus falou mesmo com Balaão, ou seja, Balaão seria um profeta de legítimo, então Deus mandou Balaão ir ao encontro de Balaque, e depois mudou de idéia sem justificativa ficando irado porque Balaão foi (Números 22:20-22). Os críticos afirmam que alguns idiotas pegaram quaisquer coisas mencionando Balaão e fizeram uma espécie de colagem, formando o texto da Bíblia, que segundo eles se contradiz e atesta contra a inerrância das escrituras e a existência de Deus. Sendo assim, vamos destacar algumas coisas estranhas nas passagens bíblicas de interesse:

 

  • Balaão NÃO era um profeta de Deus, e isso é evidenciado pelo fato dele ser um adivinho, cogitar a possibilidade de amaldiçoar o povo de Deus mais de uma vez (!), E pelo fato de que, se fosse um profeta legítimo teria visto de imediato o anjo do Senhor, sendo que a burra viu e ele não. Se ele realmente fosse um profeta de Deus, deveria ter recusado imediatamente a oferta de Balaque.
  • Balaão não é descrito de forma positiva como outros gentios que conheciam o Senhor, Jetro (Êxodo 18:1-27) e Melquisedeque (Gênesis 14:18-20 e Hebreus 7:1-28).
  • O autor, Moisés, usa “Deus” ao invés de “Senhor”, que Balaão usa. Este parece ser um recurso literário cujo intuito é o de distanciar o Deus de Israel do “Deus” ou “Senhor” de Balaão [2].
  • Ao retornarem pela primeira vez, os mensageiros de Balaque não mencionam que Deus, o Senhor, foi quem proibiu Balaão de aceitar o serviço proposto (Números 22:14 – Então eles voltaram e foram falar com Balaque. E disseram:
  • – Balaão não quis vir com a gente.). Já, já veremos a importância disso.
  • Os textos indicam que Balaão era tão embusteiro, que mesmo após o incidente com a burra, ainda resolveu, sabendo que não iria conseguir, insistir na trama de Balaque pra ver se seria possível amaldiçoar o povo de Deus ou pelo menos levar uma graninha (Números 23 e 24). Após o ocorrido, para não deixar o cliente decepcionado, Balaão dá a dica pra fazer com que Deus se zangue com Israel: Incitá-los à idolatria e imoralidade sexual, como descrito em Números 25 e explicado posteriormente em Números 31:16 (Lembrem que foram as mulheres que, seguindo os conselhos de Balaão, fizeram com que os israelitas fossem infiéis a Deus, o Senhor, adorando o deus Baal-Peor. Foi por isso que houve uma epidemia no meio do povo de Deus.).

 

Resolvendo a burrada de balaão

 

Para resolver tudo isso, existe uma “anti-explicação” por parte dos teólogos liberais, que pura e simplesmente diz que os trechos se contradizem pois nada mais são que colagens feitas por editores, muito tempo depois, durante o cativeiro babilônico. Entretanto, essa “explicação” falha ao ignorar a integridade estrutural da história, e o contexto externo, pois ela se encaixa melhor no final da idade do bronze, ao invés do final da idade do ferro II, quando supostamente foram realizadas as colagens e edições. Balaão era de Petor, localizada em uma região identificada como sendo mencionada no Século 15 A.C. em um inscrição de Alalaque, no norte da Síria [3].

 

 

De forma geral, a explicação mais comum para o caso Balaão é que, apesar de não ser assim um Moisés, tinha contato com o Deus de Israel, que havia efetivamente falado com ele e o mandado ir com os Moabitas. O Senhor se irou porque Balaão, na verdade, tentado pelas ofertas de riquezas, estava mais interessado mesmo era em conseguir um dinheiro, e não fazer a vontade de Deus. O incidente com a burra seria uma espécie de provação da fé, assim como Deus havia feito com Moisés anteriormente (Êxodo 4:24-26 o motivo da provação foi o fato de que Moisés não circuncidara seu filho) [4, 5, 6]. Essa até é uma explicação possível, todavia:

 

Uma solução irônica!

 

Ainda resta uma pergunta pertinente: Se Balaão era tudo de ruim assim, porque o trecho Bíblico em Números 22 relata que ele falou com Deus? A melhor explicação para o que ocorre neste trecho é que isso tudo é uma contradição intencional, ou seja, o autor interrompe a narrativa histórica e adiciona trechos satirizando Balaão [7, 8]!

 

Como nós não vivemos naquele tempo, não temos uma boa noção do quanto o sujeito era famoso, nem conseguimos perceber o quão óbvia a piada é, mas vamos tentar imaginar a mesma situação hoje em dia. Imagine que você seja um desses caras que acredita em tudo e candidato a algum cargo eletivo político, como não custa nada (pra quem é muito rico!), você resolveu encomendar um trabalhinho com digamos, algum vidente ou macumbeiro muito famoso recente, uma mãe Dinah, Rodrigo Tudor ou o tal Jucelino Nóbrega da Luz. Tá, você (Balaque) mandou seu assessor se encontrar com o macumbeiro, para marcar um encontro e fazer o trabalho. Mas ao retornar o assessor te responde: Olha Dr., ele não quis vir…. E não: Deus não deixou ele vir! Note que o fato de Deus não ser mencionado evidencia a hipótese de que Balaão não havia falado com o Senhor coisíssima nenhuma.

 

Qual seria a reação mais óbvia? Você já sabe que, pagando, o cara faz até amarração para o amor, mas se recusou a vir fazer um trabalho pra você, tão influente (e rico!)? Ora, tá na cara que esse cara quer mais dinheiro. Sendo assim você manda um representante mais importante com um cheque em branco na mão (o equivalente à situação Bíblica). Adivinha quem chegou depois com o assessor? Ele mesmo: O macumbeiro, com uma conversa esquisita, mas veio mesmo assim…

 

Note que, mesmo havendo essa inserção de trechos satirizando Balaão, no fim das contas o Senhor efetivamente acabou usando ele após o incidente com a burra: Mas para abençoar Israel e não o contrário. É importante ressaltar que Deus humilhou um golpista, que achava que podia manipulá-lo, de forma extrema: O “profeta” eloqüente e importante, além de não ver o anjo do Senhor de imediato (ao contrário da burra) apela para a violência física contra a burra, que não somente o salvou do anjo, mas por ordem do Senhor o derrota com argumentos [8]!

 

Mas e a burra?

 

Mas você pode estar se perguntando: E a burra falando? Não é uma contradição? A resposta é simples: Não, é um milagre (seja lá qual foi o método utilizado por Deus pra fazer essa burra falar). Deus é o criador dos Céus e da Terra, pode fazer milagres à vontade, isso não é uma contradição Bíblica. O relato não é aceito pelos críticos, pois a visão de mundo deles exclui de imediato a ocorrência de milagres. Mas aí é problema deles.

 

Referências e notas:

 

[1] KAISER, WC & GARRET, D (Editores). Archaeological Study Bible. Zondervan. 2006. pp. 228-229.

[2] BARKER, K (Organizador). Bíblia de estudo NVI. Ed. Vida. 2003. p. 244.

[3] GEISLER, N. (Editor). The Apologetics Study Bible. Holman. 2007. p. 238.

[4] Ibid. pp. 238-239.

[5] ARCHER, GL. New International Encyclopedia of Bible Difficulties. Zondervan. 2001. p 140.

[6] KAISER, WC. Hard Sayings of the Bible. Inter-Varsity Press. 1996. pp. 139-141 (Versão eletrônica).

[7] http://www.tektonics.org/af/balaamnum.html

[8] http://www.midreshetmoriah.com/alumnae/maor.asp?id=33

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