Lucy, Australopithecus afarensis – AL 288-1: Ancestral dos humanos?

setembro 24, 2007 às 7:19 pm | Publicado em Blogroll, Uncategorized | Deixe um comentário

LUCY SHOX (OU XÓKS?)

Maximiliano Mendes

 

ERA UMA VEZ…

 

…Um adolescente chamado Joãozinho, aflito, pois apesar de ser de família humilde, começara a andar com um pessoal mais gastador. Convidado para ir numa festinha na casa de um de seus novos amigos, percebeu que não tinha um tênis, digamos, de prêibóy, sendo assim, com o dinheiro que tinha (não muito), resolveu arriscar e encomendar um Nike Shox de um site delicadamente suspeito por um preço muito acessível… O prazo de entrega era de dois dias, e durante esse tempo, Joãozinho foi assolado pelo fantasma do Capitão Gancho, pensando se realmente aquele tênis era original. Chegando o tênis, Joãozinho, bom conhecedor do produto, percebeu que nunca tinha visto esse modelo em nenhuma loja, nem em sites da Nike, nem em lugar nenhum. Analisando o tênis, ele procurava de forma minuciosa por quaisquer características típicas dos originais, que conhecia muito bem. Ao passo que características indicando que o tênis era falsificado eram interpretadas como coincidência. E o que isso tem a ver com evolução humana e australopitecinos? Veremos depois, entremos então no tema:

 

O establishment secular postula que espécies já extintas de macacos são os ancestrais da espécie humana. Após ler essa frase, você pode estar pensando: Que cara estúpido, a “ciência” não diz que os homens evoluíram dos macacos, mas sim de criaturas semelhantes aos macacos atuais e que são os ancestrais tanto deles quanto da espécie humana. Bobagem. Uma pessoa comum de hoje em dia, ao ver essas criaturas as chamaria de macacos prontamente. De acordo com o paleontólogo George Gaylord Simpson [1]:

 

Na verdade, aquele ancestral antigo certamente seria chamado de macaco ou macaco antropóide em conversas por qualquer um que o visse. Visto que os termos macaco e macaco antropóide são definidos por uso popular, os ancestrais do homem foram macacos, macacos antropóides ou ambos sucessivamente. É covarde, senão desonesto, um investigador bem informado dizer o contrário.

 

Dentre os mais famosos macacos, supostos ancestrais da espécie humana, está Lucy.

 

E QUEM ERA LUCY, O ESPÉCIME AL 288-1 [2-7]?

 

Pertencente à espécie Australopithecus afarensis, macaco antropóide do sul da depressão de Afar, localizada no nordeste da Etiópia. Foi descoberta em 1974, por Donald Carl Johanson, em Hadar, na Etiópia. 40 % completa, consiste de fragmentos de ossos do crânio, uma mandíbula, costelas, um osso do braço, parte da pélvis, um fêmur e fragmentos de tíbia. Media por volta de 1,1 m de altura e pesava 29 kg. Acredita-se que este espécime viveu por volta de 3,2 milhões de anos atrás, e que a espécie viveu de 2,9 a 3,9 milhões de anos atrás (época do Plioceno).

 

O espécime AL 288-1. Fonte: Wikipédia

O nome Lucy, apesar de significar “você é maravilhosa” no idioma etíope (amhárico), foi inspirado por uma música dos Beatles, boy band dos anos 1960, Lucy in the Sky with Diamonds. A letra da música só faz sentido quando se percebe as iniciais do título: LSD. Independente disso, Lucy definitivamente foi o diamante que catapultou Donald Johanson do anonimato para a fama: Ele havia descoberto um hominídeo bípede ancestral da espécie humana. Pelo menos essa é a crença do establishment secular, mesmo ainda havendo controvérsia sobre o modo de locomoção dos Australopithecus [5]:

 

A análise do esqueleto traz evidências de que o A. afarensis podia se movimentar de forma bipedal, como os humanos atuais, e também saltar de galho em galho. Ainda não há consenso sobre se os indivíduos dessa espécie andavam no chão, trepavam em árvores ou se movimentavam das duas formas. Os ossos da perna (fêmur e tíbia) e dos pés da menina eram aptos a caminhar com o corpo na posição vertical. No entanto, os ossos dos ombros são parecidos com os de gorilas e permitiriam movimentos nas árvores.

De forma geral, acredita-se que as principais características anatômicas que atestam a favor do bipedalismo de Lucy sejam [5]: A lâmina do osso ilíaco reduzida, a curvatura lombar, os joelhos próximos da linha mediana do corpo, a superfície articular distal da tíbia aproximadamente perpendicular ao eixo, o metatarsal I robusto com uma cabeça expandida, o hálux (dedão do pé) convergente, e falanges do pé proximais com as superfícies articulares proximais orientadas dorsalmente.

 

Algumas dessas características podem ser interpretadas de forma distinta [5]:

 

  • Os joelhos próximos da linha mediana do corpo estão presentes em humanos, mas também estão presentes em macacos que vivem em árvores, como orangotangos e macacos aranha. Então por que isso não pode ser interpretado como evidência de que ela arborícola? E aquele seu conhecido com pernas de cowboy anda de quatro que nem um macaco?
  • O metatarsal I robusto com uma cabeça expandida é um padrão também encontrado em chimpanzés.

Com isso em mente, podemos nos indagar: E se for possível inferir, a partir da análise dos ossos, que Lucy não passava de apenas mais um macaco extinto? Será que os dados podem dar uma rasteira nela? Ao continuar lendo o texto, tenha em mente a admissão a seguir [6]:

Os Fósseis são volúveis, os ossos cantarão qualquer música que você queira ouvir.

 

Tenha em mente também o seguinte:

 

  • Mesmo que a opinião de um autor, sobre um tema qualquer, seja X, eu posso usar à vontade uma admissão a favor de Y, contrária a X, que ele forneça.
  • Mesmo que um artigo seja sobre um tema A, o autor pode mencionar algo sobre um tema B nele.
  • E como eu não sou ateu, prisioneiro do naturalismo filosófico, posso citar artigos de criacionistas à vontade, se você não gosta ou tem raivinha, problema seu.

 

Coisas bem óbvias, diga-se de passagem, mas sobre as quais muita gente gosta de se fazer de sonso…

 

O QUE UM DEFUNTO AINDA PODE NOS DIZER [2-8]?

De acordo com os espíritas, muito. Mas neste caso, defuntos de supostos hominídeos não nos dizem nada, quem diz algo é quem os analisa e interpreta os dados de acordo com suas pressuposições e visão de mundo. Baseados nisso, veremos a seguir uma série de dados referentes a diversas análises realizadas em fósseis classificados como sendo de espécies de australopitecinos, basicamente A. afarensis e A. africanus, as chamadas formas gráceis, que se acredita terem sido bastante semelhantes:

O crânio [7-10]:

Crânio de A. afarensis. Fonte: Ref [2].

O crânio, inclusive com a mandíbula foi descrito como simiesco, com o volume medindo de 370-515 cm3 sendo a média 470 cm3 e diferindo do dos chimpanzés basicamente no que diz respeito ao tamanho dos dentes caninos e molares, menores em Australopithecus, o que reduz o tamanho do focinho. Os valores para o volume do crânio de chimpanzés são de 275-500 cm3. É interessante notar que um estudo utilizando tomografia computadorizada estima que a capacidade craniana desses fósseis possa ter sido inflada, e então, na verdade, sejam menores [8].

Relacionado com esta região do corpo está o ligamento nucal, ausente em chimpanzés, e aparentemente também ausente em australopitecinos [9]. O ligamento nucal é necessário, pois estabiliza a cabeça durante a corrida [10], ou seja, os macacos antropóides, inclusive os australopithecinos, são péssimos corredores. Então quando em perigo, eles fogem correndo de forma bípede ou quadrúpede?

A caixa torácica [2, 7, 8]:

De acordo com o paleontólogo suíço Peter Schmid:

Quando eu comecei a montar o esqueleto, esperava que parecesse humano. Todos falavam de Lucy como sendo muito moderna, muito humana, então eu fiquei surpreso com o que vi. Notei que os cortes transversais das costelas eram mais arredondados, assim como os dos macacos. As costelas humanas são mais achatadas. Porém, a forma da caixa torácica foi a maior surpresa de todas. A caixa torácica humana tem forma de barril, e eu não conseguia fazer com que as costelas de Lucy se ajustassem nesse formato. Todavia, eu consegui ajustá-las em um formato de caixa torácica cônica, como as que você observa nos macacos. […] Os ombros eram altos, e, combinados com o tórax em forma de funil, tornaria improvável, em um sentido humano, girar os braços. Ela não seria capaz de levantar seu tórax para o tipo de respiração profunda que realizamos quando corremos. O abdome era barrigudo, e não havia cintura, o que teria restringido a flexibilidade essencial para a corrida humana.

O encaixe do úmero com a omoplata de A. afarensis era mais direcionado para cima, uma adaptação importante para os animais que têm de manter os braços erguidos sobre a cabeça por muito tempo, como quando os macacos se penduram nos galhos das árvores. O mesmo encaixe, nos humanos, é perpendicular ao solo e menos adaptado para se manter nesse tipo de posição. Sabe-se também que os pontos de ligação entre os músculos das costas e as vértebras dos australopitecinos são muito maiores em relação às dos humanos, novamente indicando comportamento arborícola.

 

E daí? Peça para que algum amigo seu lhe crucifique, fique pendurado por algum tempo e note que é mais difícil respirar…

Os braços e pernas [2, 5, 7, 8, 11-14]:

De acordo com Richmond & Strait, os pulsos de Lucy são rígidos como os de um chimpanzé. Macacos antropóides apresentam um modo de locomoção quadrúpede em que se apóiam com os nós dos dedos das mãos, sendo que a pressão é exercida sobre os punhos (knuckle walking). Sendo assim, esses macacos apresentam um mecanismo que trava o pulso, a fim de estabilizar essa articulação. De acordo com os dois pesquisadores, os pulsos de Lucy apresentam características morfológicas associadas com esse tipo de locomoção [11].

As setas em b e c marcam a ponta dorsal do escafóide. A mostra um esquema de um chimpanzé caminhando se apoiando nos nós dos dedos (knuckle walking). B: corte esquemático parasagital da mão de Pan troglodytes (chimpanzé) junto ao terceiro raio. A leve concavidade no escafóide acomoda uma convexidade no raio distal. Esta convexidade, a fenda escafóide, está junta à margem de um sulco que se projeta distalmente no rádio. C: Radiografia em visão mediolateral do pulso de chimpanzé. Notar a posição empacotada no pulso estendido (direita). Fonte: http://www.nature.com.

 

Além disso, aparentemente a anatomia dos membros era especializada para se balançar pelas árvores. De acordo com Stern & Susman, o osso pisiforme (um dos ossos do pulso) era alongado e em forma de bastão, semelhante aos dos macacos. Não somente isso, mas as falanges (ossos dos dedos) eram acentuadamente curvas, indicativo de uma adaptação para as atividades do tipo se pendurar nas árvores, que requerem força na pegada. Além desses, o trapézio (outro osso do pulso) e o primeiro metacarpal são muito semelhantes aos dos chimpanzés em forma e tamanho.

Também é muito pouco provável que A. afarensis tivesse o pé arqueado como o dos humanos e os pés das pegadas de Laetoli, mas sim um pé chato como os de macacos [12, 13]. Sobre isso, o paleoantropólogo Owen Lovejoy faz um comentário interessante: Vários humanos modernos tem os pés chatos … eles são mais propensos às lesões, pois não possuem as capacidades de absorção de energia dos arcos, mas andam de forma perfeitamente normal. Eu também posso andar engatinhando, mas vou viver com o joelho ralado… Pura petição de princípio, ele toma por certo e demonstrado aquilo que deve demonstrar. Também é importante destacar a opinião do paleoantropólogo Charles Oxnard [5]:

 

Uma série de ossos de pés associados provenientes de Olduvai [localidade contendo fósseis de australopitecinos] foi reconstruída em uma forma muito semelhante ao pé humano, embora, de forma semelhante, um pé incompleto de chimpanzé também pode ser reconstruído desta forma.

É interessante comentarmos aqui algo sobre as PEGADAS DE LAETOLI [14]: Descobertas em 1976, acredita-se que (de acordo com as metodologias de datação seculares) houve uma erupção massiva do vulcão Sadiman, localizado em Laetoli, Tanzânia, há 3,5 milhões de anos. Esta erupção cobriu uma grande extensão de terra com cinzas, e chuvas ocorridas após o evento transformaram a cinza vulcânica em um “cimento”, por sobre o qual muitas espécies de animais pisaram e deixaram pegadas. Posteriormente, uma nova camada de cinzas caiu por cima das pegadas, preservando-as, na medida em que as cinzas se tornaram rocha. Acontece que, dentre as pegadas encontradas há uma trilha de pegadas “indistingüíveis das dos humanos” indicando ser de dois indivíduos adultos, seguidos por um terceiro, menor, que por sua vez pisava dentro das pegadas dos maiores. É isso mesmo o que você está pensando: Uma família. O vídeo a seguir detalha tudo isso:

 

Uma versão com legendas em inglês pode ser vista aqui: http://www.pbs.org/wgbh/evolution/library/07/1/l_071_03.html

 

A lógica do evolucionismo então é a seguinte: Se as pegadas foram datadas como sendo de 3,5 milhões de anos atrás, período em que se acredita que os A. afarensis habitavam aquela região, então essas pegadas eram deles e eles tinham os pés iguais aos nossos e eram bípedes. Mas como acabamos de ver, os fósseis indicam que os A. afarensis tinham os pés chatos como os de macacos, e não como os nossos, sendo assim, essas pegadas não poderiam ser deles. E por que não poderiam ser pés de humanos? Há algo semelhante assim deixado por humanos? Sim, há. Recentemente foram encontradas no Egito, as pegadas humanas mais antigas, e acredita-se que podem datar de 3 milhões de anos atrás [15]. Ora, então por que não interpretar as pegadas de Laetoli da mesma forma? (Porque a religião secular, baseada no naturalismo filosófico não permite).

Os canais semicirculares [5, 7, 8, 16, 17, 18]:

Os canais semicirculares são estruturas preenchidas de líqüido, presentes na orelha interna dos animais, relacionadas com o equilíbrio do corpo:

Sabe-se que as dimensões dos canais semicirculares refletem o comportamento locomotor do animal [16]. O anatomista Fred Spoor analisou os canais semicirculares de Australopithecus africanus, espécie que se acredita ser bastante semelhante à A. afarensis, pelo menos no que diz respeito a esse aspecto, e descobriu que as dimensões destas estruturas são mais semelhantes às de espécies de macacos já extintas. Ora, se o formato e tamanho destes canais reflete o tipo de comportamento locomotor do animal, isso também constitui evidência de que os australopitecinos se mais provavelmente se locomoviam como macacos, e não eram capazes de caminhar de forma bípede ereta da mesma forma que os humanos. Os canais dos humanos têm um arranjo ajustado para monitorar os movimentos que ocorrem no plano vertical, como a caminhada e corrida bípedes, isso teria envolvido uma remodelação dramática nas dimensões dos canais (em comparação com os dos supostos ancestrais macacos) [17].

Se você ainda não conseguiu perceber a relação entre as dimensões dos canais semicirculares e a complexidade do bipedalismo, devida à dificuldade em estabilizar o corpo nas duas pernas, responda para si mesmo a pergunta: Qual dos dois robôs mostrados na figura a seguir deu menos trabalho para ser construído?

Na verdade, o que o time de Spoor propôs, devido ao fato de os canais semicirculares de A. africanus serem “definitivamente simiescos”, é que eles eram bípedes facultativos, podiam se equilibrar nas duas pernas em pé, possivelmente uma postura adotada durante a alimentação. Acontece que, chimpanzés e bonobos também podem ser considerados bípedes facultativos desta mesma forma [17, 18]. Continuamos então na mesma: O que os australopitecinos têm de tão especial que os permite ser considerados como ancestrais da espécie humana, ao passo que praticamente ninguém crê que os chimpanzés estejam a caminho de se tornar mais semelhantes a nós no futuro?

Pélvis e sexo [2, 7, 8, 19, 20-23]:

A única pélvis disponível da espécie A. afarensis é essa, de Lucy (reveja a figura mostrando o espécime), e sobre esta pélvis, de acordo com Hausler & Schmid [2]:

O sacro e a região auricular do ílio estão despedaçadas em numerosos fragmentos pequenos, de forma que é difícil elucidar o formato original. Daí, não é surpreendente que as reconstruções de Schmid e Lovejoy mostrem diferenças tão marcantes.

O sacro do espécime AL 288-1 está grandemente intacto, ao passo que a região superior do ílio foi esmagada, dobrada e quebrada em aproximadamente 40 pedaços, fundidos ao longo do tempo devido ao processo de fossilização [19, 20]. Sendo assim, de acordo com Lovejoy [19]:

 

Freqüentemente, um fóssil neste estado pode ser reduzido aos seus pedaços individuais e reagrupado como um quebra-cabeça. Entretanto, os pedaços da pélvis de Lucy não podiam ser facilmente separados [Ele não explica o motivo…]. Ao invés disso eu tirei um molde de cada pedaço e os reuni na justaposição anatômica adequada.

 

Pélvis de AL 288-1 mostrando a curvatura da parte superior do ílio, a espinha ilíaca superior posterior (PSIS). Retirado de [20].

 

Aparentemente, Lovejoy descarta como sendo “irrelevantes” quaisquer deliberações a respeito dessa pélvis que não levem em consideração o reparo necessário [20]. Traduzindo: Ele descarta como sendo irrelevantes quaisquer deliberações que não sejam baseadas na reconstrução dele, a correta, claro… De qualquer forma, esta é a reconstrução mais aceita pelo establishment secular, encenada em um documentário do canal americano PBS. Você pode ver o trecho de interesse no vídeo criacionista a seguir:

O transcrito do vídeo original pode ser conferido aqui: http://www.pbs.org/wgbh/nova/transcripts/2106hum1.html

O narrador do vídeo da PBS é o próprio Donald Johanson.

 

Ok, vejamos, de acordo com a lógica do evolucionismo: Se as pegadas de Laetoli são de animais bípedes iguais a nós, e a articulação do joelho indica que eles podem suportar o corpo na posição bípede (seria da mesma forma que sustenta um orangotango andando em cima de galhos e se apoiando com os braços?) então definitivamente a pélvis não podia ser “simiesca demais” (como mostrado nos trechos do vídeo).

 

Não obstante, como já visto, há mais do que uma proposta de reconstrução distinta. De acordo com Maurice Abitbol [7]:

As visões prevalecentes sobre a postura de Lucy são quase impossíveis de serem reconciliadas. Quando se observa as reconstruções propostas por Lovejoy (1998) [creio que isso é um erro de digitação e a data correta seja 1988, Ref. 19.] e Weaver (1985), tem se a impressão de que sua reconstrução total seria o corpo de um humano bípede perfeitamente moderno … Mas quando se observa a reconstrução recentemente mostrada no Smithsonian, tem se a impressão de [que Lucy era] um chimpanzé desastradamente tentando se apoiar em seus membros posteriores e a ponto de cair de quatro (Lewin, 1988). Na última, a implicação é uma forma primitiva de bipedalismo dos hominídeos de Hadar. A fim de resolver tais diferenças, é preciso mais evidências anatômicas (fósseis). Os dados disponíveis são abertos a interpretações amplamente distintas.

 

Outro estudo indica que há grandes diferenças entre os ossos pélvicos de humanos e de australopitecinos. Mas é proposto, na falta de fósseis de morfologia intermediária, que houve um período de evolução rápida, correspondente à emergência do gênero Homo [8].

 

Será que realmente devemos confiar cegamente na opinião de Lovejoy acerca deste assunto? De acordo com ele [19]:

 

Uma espécie não pode desenvolver modificações anatômicas detalhadas para um comportamento em particular, como o bipedalismo, a menos que ela consistentemente o adote. Para que a seleção natural tenha modificado o esqueleto herdado por Lucy de forma tão aprofundada para o bipedalismo, seus ancestrais devem ter gasto a maior parte de seu tempo no chão, andando de forma ereta. […] [Levando em consideração as características anatômicas do pescoço do fêmur:] Ela não era somente capaz de andar de forma ereta; esta se tornou sua única opção. […] Uma análise do resto de seu esqueleto e de outros Australopithecus revelou modificações igualmente dramáticas que favorecem o bipedalismo e descartam outros modos de locomoção.

Cuma? Voltando ao exemplo dos pés, então quer dizer que a única opção de A. afarensis seria sofrer de artrite e osteoartrite? Bem, pelo que vimos aqui, ele está enganado. Na verdade, mesmo que A. afarensis apresente certo tipo de bipedalismo, diferente do nosso, considerando as características mais semelhantes às de macacos que vimos aqui, adaptações para a vida arborícola, até que ponto esta espécie pode ser considerada bípede ou com uma pélvis mais semelhante à dos humanos? Seria bípede por possuir estrutura anatômica para andar desta forma, ou seria apenas uma postura eventual, como as dos chimpanzés, que apresentam um bipedalismo limitado?

A questão a ser feita aqui é: É justificável reconstruir uma pélvis quebrada, tendo em vista todas as características simiescas que o espécime apresenta, com um formato muito semelhante ao humano, supondo que seu modo de locomoção fosse muito similar ao nosso, a fim de apoiar o que o evolucionismo requer? De acordo com Christine Berge [7]:

 

 

O bipedalismo de Australopithecus deve ter diferido do Homo. Não somente Australopithecus tinha uma habilidade menor em manter o joelho e quadril estendidos durante o caminhar, mas também, provavelmente movia a pélvis e os membros inferiores de forma distinta. Parece que o caminhar dos australopitecinos diferia significativamente do dos humanos, envolvendo um tipo de “caminhar de pato”, com grandes movimentos rotatórios da pélvis e ombros em volta da coluna vertebral. Tal caminhar requereria um custo energético maior do que o bipedalismo humano.

E de acordo com Lewin [21, p. 133, 134]

Seguindo uma pesquisa mais abrangente, Jungers, Jack Stern e Randall Susman (todos da State University of New York – SUNY, em Stony Brook) propuseram que o conjunto completo de adaptações anatômicas pós-cranianas indicava que, embora A. afarensis fosse bípede quando no chão, passava um tempo significativo nas árvores, para dormir, escapar de predadores e procurar alimentos. Além disso, eles concluíram que, enquanto o animal estivesse se movendo no chão, ele não poderia executar um passo completo, como Lovejoy havia proposto, mas ao invés disso, adotava um modo de locomoção do tipo joelho e quadril curvados [bent knee, bet hip] (BKBH), Este modo de locomoção claramente teria complicações biomecânicas e energéticas importantes para A. afarensis. Especificamente, este tipo de caminhar é consideravelmente menos energeticamente eficiente do que o caminhar ereto humano. A vantagem seletiva da locomoção BKBH teria de ter sido considerável, dado o custo energético desta forma de locomoção. […] [E]mbora os membros posteriores possuíam proporções homininas [referindo-se à subfamília Homininae, à qual pertencemos], desta forma melhorando a distribuição do peso e o equilíbrio requerido para o bipedalismo, as pernas são curtas, como nos macacos. Pernas curtas implicam em passadas curtas. Além disso, o pé é grande em relação à perna, e isso significa que o desembaraço [ao caminhar, imagine-se andando com um pé de pato] só poderia ser realizada com o aumento da flexão do joelho.

 

 

A controvérsia envolvendo as reconstruções desta pélvis de Al 288-1 é tão grande, que de acordo com Hausler e Schmid [2]:

 

 

Ao contrário do Sts 14 [Australopithecus africanus], o parto de Al 288-1 seria mais complicado do que nos humanos modernos, se não impossível, devido ao promontorium protraído […] Conseqüentemente, há mais evidências para sugerir que AL 288-1 era um macho ao invés de uma fêmea. Uma fêmea da mesma espécie de AL 288-1 teria uma pélvis com um diâmetro sagital maior e um promontorium menos protraído. […] De forma geral, a pélvis mais larga e as lâminas ilíacas mais lateralmente orientadas de AL 288-1 produziriam sítios de inserção mais favoráveis para os músculos escaladores em machos de estrutura maior. […] Talvez seja melhor mudar o nome trivial [de Lucy] para “Lúcifer”, de acordo com o deus da Roma antiga que traz luz após a noite, pois com essa pélvis, “Lucy” aparentemente seria a última da sua espécie.

[*Além disso, uma reconstrução da pélvis do espécime Stw 431 (A. africanus) parece apoiar um formato mais simiesco, com as lâminas ilíacas alargando-se lateralmente, ao passo que as dos humanos são orientadas de forma mais vertical [22]. Essa reconstrução se assemelha à reconstrução de A. afarensis de Schmid, e difere da reconstrução de Lovejoy, e da reconstrução da pélvis de Sts 14 (A. africanus). Todavia, é importante notar que, A única peça que não apresenta deformações nem foi esmagada, é essa pélvis de Stw 431, que também permite um bipedalismo parcial [22].]

 

Lembre-se: Os Fósseis são volúveis, os ossos cantarão qualquer música que você queira ouvir. Este ponto permanece controverso.

É importante destacar que o problema aqui não é com o bipedalismo em si. Havia outras espécies de macacos antropóides no mioceno, não considerados como sendo ancestrais da espécie humana que se acreditava terem sido bípedes, mas desenvolvido o bipedalismo de forma independente da suposta linhagem de ancestrais da espécie humana [8]. Não somente isso, mas um caso ainda mais curioso de um macaco bípede é o da macaca Natasha (Macaca nigra), de um zoológico israelense, que só se locomove de forma bípede e ereta, provavelmente após ter sofrido dano neurológico [23].

Natasha. Fonte: http://www.msnbc.msn.com/id/5479501/

É mais do que óbvio que as características anatômicas deste animal não são as mais adequadas para o bipedalismo.

A PROPAGANDA É A ALMA DO NEGÓCIO

Ora, Joãozinho simplesmente não poderia aceitar de forma alguma a possibilidade de que seu tênis era falsificado. Imagine só a situação, ser pego na festa de um pessoal cheio da grana e bem arrumado, com um tênis falso? Ou seja, fingindo ser aquilo que não é? Portanto, logo que recebeu o tênis, procurou buscar as características que o permitiriam crer que aquele produto era mesmo original. Mas e as outras?

Se há tantas evidências para se crer que Lucy, o espécime AL 288-1 fosse nada mais que um macaco já extinto, por que ela foi anunciada como um ancestral dos humanos? As admissões a seguir podem revelar alguma coisa:

Donald Johanson [2]:

Não existe esse negócio de imparcialidade. Eu não sou; ninguém é. O caçador de fósseis no campo também não é [..]. Há um forte desejo em qualquer um que esteja procurando por hominídeos, de aprender mais sobre onde a linhagem dos humanos começou. Se você trabalha com o passado, cerca de 3 milhões de anos atrás, como eu, isso é muito tentador, porque você começa a ter uma idéia de que foi lá que o gênero Homo surgiu. Você começa a filtrar o que vê, para encontrar características do Homo nos fósseis daquela era […] Lógico, talvez, mas tendencioso. Eu estava tentando espremer evidências de datas em um padrão que apoiaria as conclusões sobre fósseis que, se examinados de forma mais rigorosa, os próprios fósseis não sustentariam. […] Agora é difícil para eu admitir o quão envolvido eu estava naquela moita. Mas a coisa insidiosa sobre a tendenciosidade é que ela torna uma pessoa surda para os gritos das outras evidências.

Timothy White, em um artigo de Michael Shermer [24]:

 

O problema está na diferença entre os agrupadores e os separadores na classificação das espécies, e as pressões sociais para publicar novas descobertas extraordinárias. Se você quer sua descoberta fóssil publicada na capa da Science ou da Nature, não pode concluir que seu fóssil é só mais um A. africanus, por exemplo. É melhor que você venha com uma interpretação indicando que essa nova descoberta sendo revelada pela primeira vez ao mundo é a mais espetacular do último século e promete reformular a filogenia dos hominídeos, e mandar todo mundo de volta para a prancheta a fim de reconfigurar a árvore evolutiva humana. Um olhar mais bem treinado e cético sobre esses fósseis, entretanto, mostra que muitos, se não todos, pertencem a categorias já bem estabelecidas. White diz que o espécime classificado como Kenyanthropus platyops, por exemplo, é muito fragmentado e muito provavelmente só mais um Australopithicus africanus. “A diversidade de nomes não é igual à diversidade biológica”, White esclareceu.

 

Então será que, dadas suas características simiescas, Lucy não era só mais uma espécie de macaco já extinta, e ambos, Johanson, White, Lovejoy e outros não fizeram exatamente o que se sentiram pressionados a fazer pelo establishment secular ao publicarem? A religião secular pode acomodar basicamente qualquer explicação. Mesmo apresentando diversas características simiescas, os australopitecinos não são vistos como sendo macacos extintos, pois essas características são interpretadas como retenções não funcionais de um ancestral mais simiesco. Todavia, o esperado é que os organismos não retenham esse tipo de características, chamadas bagagens evolutivas, por muito tempo, já que não as utilizam (nós não precisamos de mãos de macacos…). Mas de acordo com Jeremy Cherfas [7]:

Tudo sobre seu esqueleto, das mãos aos pés, sugere que Lucy e suas irmãs retêm várias características muito adequadas para subir em árvores. Algumas dessas mesmas adaptações podem ainda ser detectadas, embora muito reduzidas, em hominídeos datando de muito tempo depois, como os espécimes de Homo habilis de 2 milhões de anos do desfiladeiro de Olduvai. Poderia se argumentar que as adaptações de Lucy para a vida arborícola sejam somente remanescentes de seu passado, mas freqüentemente os animais não retêm características que não utilizam, e encontrar essas mesmas características em espécies datando de 2 milhões de anos depois torna improvável que elas sejam remanescentes.

Voltando ao início, espero que o leitor tenha percebido as semelhanças entre o caso de Joãozinho e o caso dos paleoantropólogos seculares. Ambos têm de procurar em tênis/fósseis reais, aquilo de que necessitam para acreditarem naquilo que não é.

Mas não se preocupe, como se o que vimos aqui já não fosse o bastante para sepultar Lucy, um estudo recente [25] indicou que este macaco nem mesmo pertence à suposta linhagem ancestral da espécie humana. Basicamente, a equipe de Yoel Rak, da Universidade de Tel Aviv Analisou a morfologia do ramo mandibular de alguns primatas, incluindo A. afarensis e A. robustus, sendo que A. robustus pertence a uma linhagem não ancestral da espécie humana.

Observe a figura abaixo:

Modificado a partir de Ref. [25]. Note que só nós humanos possuímos queixo

O ramo mandibular é a porção superior, contendo as duas pontas. A ponta anterior é chamada processo coronóide, o sítio de inserção do músculo temporalis, e a ponta posterior é o processo condilar, que se articula com a base do crânio. Os dois processos são separados pelo entalho sigmóide (a curvatura).

De acordo com os pesquisadores, pode se separar os primatas existentes em dois grupos, de acordo com a morfologia do ramo mandibular:

  • Humanos: O processo coronóide geralmente é mais baixo que o condilar. Humanos, chimpanzés e orangotangos, por exemplo, pertencem a este grupo.
  • Gorilas: O processo coronóide geralmente é mais alto que o condilar. A pesquisa demonstrou que A. afarensis e A. robustus tem esta mesma morfologia.

Acontece que, de acordo com a equipe de Yoel Rak, a morfologia do grupo dos humanos representa a condição primitiva, e o surgimento da forma do grupo dos gorilas representa uma novidade surgida de forma independente nos gorilas e Homininae. Não somente isso, mas também constitui-se em uma característica que permite agrupar A. afarensis e A. robustus no mesmo Clado (grupo de organismos originados de um único ancestral comum). Se ambas as espécies estão localizadas em uma linhagem não ancestral da espécie humana, Lucy não foi sua tata[…]taravó. É importante destacar que, de acordo com os autores do artigo, existem outras características compartilhadas por A. afarensis e A. robustus que reforçam o caso defendido por eles.

Não chegaram a batizar os australopitecinos de macacos, mas já é um começo.

Enfim, Lucy é considerada algo mais que um macaco qualquer só porque pertence a uma espécie já extinta, um diamante de vidro distante no passado. Mas alguém na festinha sempre acaba notando um buraco na roupa ou um tênis made in Shyna não é mesmo?

REFERÊNCIAS:

  1. SARFATI, JD., Refuting Evolution. Master Books, 1999. p. 79
  2. HARRUB, B. & THOMPSON, B., The Truth About Human Origins. Apologetics Press, 2003. pp. 41-68.
  3. Answers.com, entradas sobre A. afarensis e Lucy.
  4. http://cienciahoje.uol.com.br/materia/view/58673
  5. http://www.detectingdesign.com/earlyman.html
  6. SHREEVE, J., Argument over a woman, Discover 11(8):58, 1990.
  7. http://www.creationontheweb.com/content/view/4639/
  8. http://www.iscid.org/papers/Luskin_HumanOrigins_071505.pdf
  9. http://www.fas.harvard.edu/~skeleton/pdfs/2004e.pdf
  10. http://www.hno.harvard.edu/gazette/2004/11.18/01-running.html
  11. http://www.creationontheweb.com/content/view/1823
  12. http://www.creationontheweb.com/content/view/4116/
  13. http://www.sciam.com/print_version.cfm?articleID=0005C9B3-03AE-12D8-BDFD83414B7F0000
  14. http://www.pbs.org/wgbh/evolution/library/07/1/l_071_03.html
  15. http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/6956902.stm
  16. http://www.pnas.org/cgi/content/full/104/26/10808
  17. http://www.newscientist.com/article/mg14319364.100.html
  18. http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=1571309
  19. LOVEJOY, CO. Evolution of Human Walking. Sciam 259, Nov. 1988. pp. 82-89.
  20. LOVEJOY, CO. The Natural History of Human Gait and Posture. Part 1: Spine and Pelvis. Gait and Posture 21, 2005.
  21. LEWIN, R., Human evolution : an illustrated introduction. 5th ed. Blackwell 2005. pp. 109-115, 131-135.
  22. *KIBII, JM. & CLARKE, RJ., A reconstruction of the Stw 431 Australopithecus skeleton pelvis based on newly discovered fragments. S.Afr.J.Sci. 99, 2003. pp 225-226. Baseado em um resumo de outra pessoa, pois o artigo não está disponível online. Sendo assim, não garanto 100 % de precisão nesses dados!
  23. http://www.msnbc.msn.com/id/5479501/
  24. http://www.sciam.com/print_version.cfm?articleID=00020722-64FD-12BC-A0E483414B7FFE87
  25. http://www.pnas.org/cgi/content/abstract/0606454104v1
Anúncios

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: