Coelhos e lebres ruminantes? Será que Deus não conhece sua própria criação?

abril 2, 2007 às 6:04 pm | Publicado em Blogroll, Uncategorized | Deixe um comentário

Coelhos e lebres ruminantes? Será que Deus não conhece sua própria criação?

Por: Maximiliano Mendes – 02/04/2007

As traduções que temos da Bíblia citam lebres e coelhos como sendo animais ruminantes. Os críticos apontam que estes animais não o são, pois não possuem estômagos compartimentados e, portanto, a Bíblia está errada. Vejamos esta suposta contradição acerca de coelhos ruminarem. Os trechos de interesse são os seguintes (NTLH):

Os animais puros e os impuros

  • Levítico 11:1-81O Senhor Deus deu a Moisés e a Arão 2as seguintes leis para os israelitas: Vocês poderão comer a carne de qualquer animal 3que tem casco dividido e que rumina. 4-6Mas não poderão comer camelos, coelhos selvagens ou lebres, pois esses animais ruminam, mas não têm casco dividido. Para vocês esses animais são impuros. 7É proibido comer carne de porco. Para vocês o porco é impuro, pois tem o casco dividido, mas não rumina. 8Não comam nenhum desses animais, nem mesmo toquem neles quando estiverem mortos. Todos eles são impuros.

  • Deuteronômio 14:3-83– Não comam nada que seja impuro. 4Vocês podem comer a carne dos seguintes animais: vacas, carneiros, cabritos, 5veados, gazelas, corços, cabritos selvagens, antílopes, carneiros selvagens e gamos. 6Todos esses animais têm o casco dividido em dois, e ruminam, e podem ser comidos. 7Mas nenhum animal deve ser comido, a não ser que tenha o casco dividido e que rumine. Portanto, não comam camelos, lebres ou coelhos selvagens, pois ruminam, mas não têm o casco dividido. Para vocês esses animais são impuros. 8Não comam carne de porco. Para vocês os porcos são impuros porque têm o casco dividido, mas não ruminam. Não comam nenhum desses animais, nem toquem neles quando estiverem mortos.

Nestes trechos Deus dá aos Israelitas instruções sobre os animais considerados puros ou impuros, O animal puro era o que podia ser utilizado tanto para se comer quanto para se ofertar como sacrifício. O impuro era o contrário.

Algumas possíveis razões para as proibições vistas acima poderiam ser [2]:

  • Higiene (Exemplo: A carne do porco pode estar contaminada com tênias);

  • O “Caráter” do animal determinava se ele era ou não puro (o porco era considerado guloso e preguiçoso);

  • Deus designou alguns de forma arbitrária para testar a obediência do seu povo;

  • Associação com rituais não hebraicos – Alguns ritos pagãos envolviam o sacrifício de porcos;

  • Conformidade com o que seria considerado um padrão de normalidade. Por exemplo, animais aquáticos sem escamas e/ou nadadeiras seriam considerados “anormais”, portanto, impuros.

Voltando ao texto Bíblico, os nomes dos animais em questão aparecem no original em hebraico como ‘arnebeth e shaphan. É interessante notar que não se sabe com certeza que animais são esses, apesar de se admitir que sejam, respectivamnte, a lebre e o hyrax (“coelho selvagem”, às vezes também chamado de arganaz, mas creio que sejam animais distintos), mostrados na figura 1. Os críticos dizem que a Bíblia está errada, pois de acordo com o que eles aprenderam nas aulas de biologia, esses bichos não são ruminantes. E agora?

Figura 1. O hyrax (esquerda) e a lebre (direita). Animais bonitinhos envolvidos em controvérsia apologética.

E o que é um ruminante? [3-5, 11, 12]

Utilizar vegetais como alimento tem algumas grandes vantagens, pois além de serem abundantes, os vegetais não saem correndo! Em contrapartida, o conteúdo nutricional da matéria vegetal é menor que o dos tecidos de animais, e como as células vegetais possuem uma parede celular constituída do polissacarídio celulose (composto de unidades de glicose), os herbívoros devem digerir esta parede celular para melhor aproveitar o conteúdo nutricional presente no citoplasma das células. Os Mamíferos não possuem celulase, a enzima que digere a celulose, então para que possam aproveitar de forma satisfatória os alimentos de origem vegetal, é necessário que vivam de forma simbiótica com microrganismos produtores de celulase presentes em seus aparelhos digestórios, em câmaras de fermentação ou no ceco intestinal.

Os ruminantes são animais herbívoros que possuem um estômago constituído de várias câmaras, onde o alimento sofre a ação de microrganismos, retorna à boca para uma nova mastigação, o ato de ruminar ou remoer, e então, quando novamente engolido passa por um estômago propriamente dito e pelo intestino delgado, onde os nutrientes serão absorvidos (figura 2). Basicamente, o processo se dá da seguinte forma [3]:

  • Após uma primeira mastigação, o alimento vai para o rúmen (pança), uma câmara de fermentação. Ali o bolo alimentar sofrerá a ação de bactérias e protozoários que digerem a celulose e convertem os produtos da digestão em ácidos orgânicos, vitaminas, metano e CO2.

  • Em seguida, o alimento passa do rúmen para o retículo (barrete), onde continua a digestão da celulose.

  • O retículo possui glândulas salivares, e de tempos em tempos o alimento é regurgitado para a boca, através de um peristaltismo esofágico invertido, onde é remastigado e engolido novamente.

  • O bolo alimentar agora passa direto para o omaso (folhoso), onde é triturado e ocorre absorção de água.

  • Saindo do omaso, o alimento passa para o estômago propriamente dito, o abomaso (coagulador) onde ocorre a digestão de proteínas e de microrganismos ingeridos.

  • Por fim, o alimento passa para o intestino delgado, onde continuará sendo digerido e absorvido.

Figura 2. Esquema mostrando o aparelho digestório de um ruminante típico.

Os ruminantes são também chamados de fermentadores de tubo digestivo anterior, pois outros animais herbívoros também executam um tipo de fermentação diferente, denominada fermentação de tubo digestivo posterior, ou fermentação cecal (que é o caso dos coelhos e hyraxes). Neste segundo caso, o bolo alimentar irá sofrer ação de microrganismos fermentadores no ceco, e os produtos serão absorvidos no intestino grosso. (Às vezes, os animais que executam este tipo de fermentação são também chamados de pseudo-ruminantes.)

Os coelhos, fermentadores cecais, executam um processo chamado cecotrofagia, um tipo de coprofagia – processo pelo qual o animal reingere suas próprias fezes. Neste caso, o animal produz as chamadas bolotas fecais ou cecotrofos, “surpreendentemente diferentes” [5] das fezes comuns, e recobertas por uma membrana. As bolotas são reingeridas para que passem novamente pelo aparelho digestório, aumentando a eficácia da absorção de nutrientes. Após a reingestão, permanecem no fundo do estômago do animal, onde sofrem uma segunda digestão (figura 3).

Figura 3. Bolotas fecais no fundo do estômago de coelho.

Cada um dos tipos de fermentação apresenta vantagens e desvantagens (explico de forma bem simplificada a seguir). A principal vantagem dos ruminantes é que este processo é bastante eficaz no que diz respeito à absorção dos nutrientes, e os próprios microrganismos responsáveis pelo processo fermentativo também são digeridos e utilizados como fonte de alimento. Já o processo de fermentação cecal, apesar de ter menor eficácia na absorção de nutrientes, é bem mais rápido: O alimento demora de 30 a 45 h para passar pelo aparelho digestório de um cavalo, e de 70 a 100 h para passar pelo de um boi. Em vista disso, os ruminantes não conseguem processar alimentos de baixa qualidade de forma suficientemente rápida para sobreviver. A figura 4 compara de forma breve os dois sistemas.

Figura 4. Breve comparação entre os aparelhos digestórios de fermentadores cecais (esqueda) e ruminantes (direita).

Resolvendo o problema [6-13]

De acordo com a definição moderna de ruminante, os críticos dizem que os coelhos e hyraxes não ruminam, ou seja, não fazem exatamente a mesma coisa que a vaca faz, pois não possuem um estômago constituído de várias câmaras. Todavia, visto que eles se comportam (movimentos da boca) como se estivessem ruminando, poderiam ser classificados como impuros pelo critério da observação. Devido a isso, até mesmo Lineu inicialmente os classificou como ruminantes (apesar de eles não terem um estômago com várias câmaras).

Como se pode utilizar o termo fermentadores para se referir a estes animais, e os fermentadores cecais também podem ser chamados pseudo-ruminantes, isto nos indica que possivelmente, o termo Bíblico não se refere aos ruminantes especificamente da forma como eles são definidos atualmente, com estômagos de quatro câmaras. Em hebraico, o que está escrito nos trechos em questão, é Ma’aleh gerah¸ que significa algo como “elevar [ou levantar] aquilo que foi engolido”. Todavia, apesar de parecer que a tradução dá a entender que o autor estava falando sobre o processo de regurgitar a comida, o termo ‘alah, refere-se à “movimento de um lugar para o outro” veja este sentido em outros locais onde a mesma palavra aparece (NTLH, OBS: existem outras passagens relevantes!):

  • Josué 24:17Foi o Senhor, nosso Deus quem tirou a nós e aos nossos pais da escravidão na terra do Egito…

  • 2 Crônicas 24:14Quando terminaram o trabalho, levaram ao rei e a Joiada o ouro e a prata que haviam sobrado…

  • Salmos 135:7Dos fins da terra, ele traz as nuvens…

  • 2 Samuel 6:15E assim ele e todos os Israelitas levaram a arca da aliança para Jerusalém…

No nosso caso em particular, o que se move de um lugar para o outro é o alimento, tanto via regurgitação, quanto via reingestão de fezes ou cecotrofos.

Como o princípio da cecotrofagia e da ruminação são semelhantes, ou seja, reingerir comida parcialmente digerida a fim de aumentar a eficiência do processo digestório, é bem provável que o termo Ma’aleh gerah, a “ruminação Bíblica” abrangesse tanto a cecotrofagia quanto a ruminação no sentido moderno (e possivelmente até mesmo outros processos similares). Isto é perfeitamente justificável, pois como já vimos:

  • Pode se referir a esses animais (ruminantes e fermentadores cecais) como fermentadores.

  • Pode se chamar os fermentadores cecais de pseudo-ruminantes.

Além desses dois pontos, de acordo com alguns pesquisadores [11, 12]:

  • O fundo do estômago das lebres atua como uma estrutura análoga às câmaras de fermentação do estômago dos ruminantes.

  • Pode se considerar os hyraxes como ruminantes, pois:

    • Eles têm três cecos, um dos quais é uma câmara de fermentação responsável pela digestão da celulose.

    • O estômago apresenta protuberâncias, que junto com o ceco e uma moela podem ser considerados o conjunto análogo ao estômago dos ruminantes.

Inclusive, alguns sugerem que o termo ruminante não deve ser definido de um ponto de vista anatômico, mas sim funcional, ou seja, ruminante seria o animal que vive de forma simbiótica com microrganismos capazes de melhorar a absorção dos nutrientes provenientes dos alimentos. Ou seja, são os animais fermentadores [12].

De qualquer forma, é preciso ter em mente que esta lista de animais proibidos era um guia prático para o israelita comum do mundo antigo, que não conhecia os aspectos técnicos envolvidos nestes processos de nutrição, para que ele observasse as instruções quando estivesse no mato procurando comida. Este tipo de pessoa, ao ver que os movimentos com a boca destes animais e das vacas, por exemplo, eram semelhantes, e que ambos se alimentavam de capim e ervas, poderia pensar que o consumo das lebres e hyraxes também estava liberado. Por isso também foi necessário apontar que, ao contrário dos ruminantes verdadeiros, estes animais nem cascos têm, então não preenchem os requerimentos para serem considerados como animais puros.

Conclusão

A expressão Bíblica que aparece traduzida como ruminam, é provavelmente um termo abrangente utilizado para se referir aos fermentadores de forma geral. Este é basicamente apenas mais um desses problemas de contextualização sobre classificações do mundo antigo. O crítico propositadamente se finge de sonso, e sentado numa poltrona confortável, na frente da internet acusa Deus de não conhecer sua própria criação e/ou não saber o que é um ruminante, pois o tradutor considerou que este termo é mais apropriado para se transmitir uma determinada idéia. O equivalente disso é dizer que Aristóteles, que classificou os animais de acordo com o ambiente em que viviam (voadores, nadadores…), era burro (ou não existiu :D), porque seu sistema de classificação não é igual ao que utilizamos atualmente, e se ele realmente existisse, teria feito um do jeitinho que o ateu gosta. É fácil perceber que o problema principal neste caso é nada mais que intransigência.

*Adendo:

Este é um dos posts mais visitados neste blog, sendo que a maioria dos visitantes são pessoas envolvidas em brigas no Orkut. É interessante notar que o analfabetismo funcional por parte dos “ateus” impera supremo. As respostas à esta postagem são uma coleção de asserções anêmicas feitas por pessoas que não entenderam o argumento apresentado aqui. Risível, o Salmo 14:1 ecoa forte nessas comunidades de misoteístas do Orkut…

Referências

  1. MORRIS, HM. The New Defender’s Study Bible. World Publishing. 2005.

  2. KAISER, WC. & GARRET, D. (Editores). Archaeological Study Bible. Zondervan. 2006.

  3. LINHARES, S. & GEWANDSZNAJDER F. Biologia Hoje, Os Seres Vivos. Ática. 2004.

  4. POUGH, FH. et al., A Vida dos Vertebrados. Atheneu. 1993.

  5. SCHMIDT-NIELSEN, K. Fisiologia Animal, Adaptação e Meio Ambiente. 5ª ed. Santos. 1999.

  6. GEISLER, NL & HOWE T. Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Mundo Cristão, 1999.

  7. ARCHER, G. New International Encyclopedia of Bible Difficulties. Zondervan, 2001.

  8. http://www.answersingenesis.org/creation/v20/i4/rabbits.asp

  9. http://www.tektonics.org/af/cudchewers.html

  10. http://www.aishdas.org/toratemet/en_pamphlet2.html

  11. http://www.apologeticspress.org/articles/2192

  12. http://www.grisda.org/origins/04102.htm

  13. http://www.christian-forum.net/index.php?showtopic=178

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