A FÉ IMPOSSÍVEL – PARTE 16

fevereiro 24, 2007 às 1:10 pm | Publicado em Blogroll, Uncategorized | Deixe um comentário

A FÉ IMPOSSÍVEL

Ou: Como não começar uma religião antiga.

Por: J.P. Holding – Tektonics.org

http://www.tektonics.org/lp/nowayjose.html

 

FATOR #16 – MISCELÂNEA DE CONTRÁRIOS.

Nesta seção iremos colocar várias notas sobre os ensinamentos e atitudes de Jesus e do Cristianismo primitivo contrários ao que era aceito como normal no Século I. Alguns destes, de certa forma, irão se sobrepor aos fatores anteriores (especialmente o #4, novidade). Devido ao fato desta seção ter sido adicionada depois das anteriores, não há paralelos com ela nos três ensaios sobre “outras religiões” a serem indicados posteriormente.

Dos comentários Social-Science Commentary on the Synoptic Gospels [Comentário Sociológico Sobre os Evangelhos Sinóticos] e o [Comentário Sociológico] de João , de Malina e Rohrbaugh:

· Jesus ensinou às pessoas que, se preciso, rompessem até mesmo com a família pelo bem do Reino; ele também indicou uma comunidade altamente inclusiva (Mateus 8:11-12) em uma sociedade altamente inclusiva. O próprio Cristianismo, como já vimos, tinha crenças que poderiam ter alienado as pessoas. Valeria a pena? “Dada a aguda estratificação social prevalecente na antigüidade, aqueles que se envolviam em relações sociais impróprias [Nota do autor: Misturas de escravos e pessoas livres, ricos e pobres, etc.!] arriscavam ser cortados de todas as redes de relacionamentos das quais suas posições dependiam. Em sociedades tradicionais isso era levado muito à sério. A alienação da família ou do clã poderia literalmente ser uma questão de vida ou morte, especialmente para a elite [Nota do autor: O Cristianismo teve mais que o número habitual nesta área!], que iria arriscar tudo pelo tipo errado de associação com o tipo errado de pessoas. Visto que as inclusivas comunidades Cristãs exigiam exatamente este tipo de associação ao longo das linhas de status de parentesco, a situação apresentada aqui [Mateus 10:34-36] é mesmo realística. A alienação iria até mesmo se espalhar além da família de origem para a rede de parentesco formada pelo casamento…” [92]. A “associação” incluía ser visto comendo com pessoas de baixa posição social [135]. “Tal despedida da família era algo moralmente impossível em uma sociedade onde a unidade de parentesco era a instituição social local” [244].

· De forma relacionada, deixar a família geralmente significava abandonar bens materiais, de acordo com a demanda de Jesus ao jovem rico (Lucas 18:18-30). Isto também é um problema: “A mobilidade geográfica e a conseqüente quebra da rede de relacionamentos sociais (família biológica, patronos, amigos, vizinhos) era considerada um comportamento seriamente desviado e teria sido muito mais traumático na antigüidade do que simplesmente deixar riquezas materiais para trás” [313]. Agora relacione isso com Pedro e Cia. Deixando tudo para trás!

· Em seus ensinamentos Jesus freqüentemente fazia inversões das expectativas comuns que teriam ofendido a maioria de forma grosseira. A parábola do “Bom Samaritano” é um exemplo – todos nós sabemos que os Samaritanos eram um povo desprezado; isso teria sido suficientemente ofensivo! Mas poucos percebem que a vítima também foi esboçada como alguém amplamente odiado: A vítima, assim como o Samaritano, eram comerciantes. Os comerciantes freqüentemente enriqueciam às custas dos outros, e eram desprezados pelas massas, que os viam como ladrões e, na verdade, teriam simpatizado com os bandidos que os roubaram! Jesus inverteu completamente os estereótipos (ver o item 2 acima) de forma que teria chocado a maioria de seus ouvintes [347]. (Sem falar no fato de que ele estendeu a categoria de “vizinho” a essas pessoas!)

· Uma inversão similar: o convite e a aceitação de Zaqueu (Lucas 19). Ao jantar com o Zaca, Jesus demonstrou companheirismo com alguém que compartilhava seus bens. A multidão ficou consternada, pois os cobradores de impostos eram estereotipados como “extorquidores vorazes”. O pronunciamento de Zaqueu, freqüentemente entendido como significando que ele iria, a partir daquele momento, ressarcir o que tinha roubado, na verdade significa que ele já vinha ressarcindo todos os que ele descobria que havia trapaceado (mesmo antes de conhecer Jesus!) e o companheirismo de Jesus é, portanto, entendido como se estivesse dizendo, “eu acredito nele” – enquanto a multidão não [387]. (É claro que isto também se aplicava a Mateus.)

· Nós podemos não dar muita importância a Maria sentando aos pés de Jesus enquanto Marta fazia o trabalho doméstico; podemos até mesmo simpatizar, mas os antigos não. Pois a reputação de uma mulher dependia de sua habilidade em administrar os trabalhos domésticos, a reclamação de Marta pareceria legítima – e Maria, por ter sentado e escutado, ao invés de ajudado a irmã, estava “agindo como um homem!” [348]. Este exemplo teria sido chocante para os antigos. De forma semelhante foi o encontro de Jesus com a mulher Samaritana [Comentário de João, pp. 98-9] – falando com ela em público (uma desviada social) e usando o mesmo utensílio para beber água. Isto teria ofendido as visões comuns sobre a pureza e as relações intra- e extra-grupais.

· O tema “nascer de novo” era chocante! [João, 82] O status de honra era considerado fixo no nascimento. Somente as circunstâncias extraordinárias permitiriam uma mudança neste status. Nascer de novo significaria a mudança no status da honra de forma fundamental, “um evento de mudança de vida, de proporções incríveis”. Pregar um “novo nascimento” teria sido inconcebível!

Do livro de N. T. Wright, Jesus and the Victory of God [Jesus e a Vitória de Deus][369-442]:

Tocar em símbolos apreciados pode ser um risco e meio! Pense em como as pessoas reagem quando alguém queima a bandeira dos EUA – e agora aplique isso a algumas das coisas que Jesus fez que “de forma implícita e explícita atacaram o que havia se tornado símbolo padrão da visão de mundo dos Judeus do Segundo Templo”, e por meio disso subverteu o etos único Judeu que era entendido como aquilo que dava a Israel a sua identidade única:

· A atitude única geral em relação aos poderes pagãos como Roma era a revolução. Mas ao invés disso, Jesus aconselhou a “dar a outra face” e carregar a carga do soldado uma milha a mais. A divergência é como a de Malcolm X versus Martin Luther king, num tempo em que os métodos de Malcolm eram altamente favorecidos.

· Guardar o Shabat de forma estrita era uma distinção dos Judeus; as atividades de Jesus, de cura e colher de milho no Shabat não violaram a Lei propriamente dita, mas sim a interpretação rigorosa favorecida pelos que desejavam preservar e enfatizar esta distinção. (Veja um item relacionado aqui.)

· Jesus ter renunciado ao ritual de lavar as mãos (que como a observância “persistente” do Shabá, não era uma regra da Lei, mas sim uma interpretação rigorosa dela) violou as percepções de pureza.

· Jesus ter comandado os outros a seguirem-no, ao invés de enterrar os mortos, violou uma das sensibilidades mais arraigadas do tempo, cuidar da família e atender às suas necessidades funerárias (importante tanto no contexto Judeu quanto no não-Judeu).

· A manifestação de Jesus no Templo foi um uma “representação” simbólica da destruição do que, para muitos Judeus, era o símbolo central do Judaísmo: o lugar onde o sacrifício e o perdão de pecados eram efetuados; um lugar de grande prestígio e honra perante os não-Judeus; o símbolo político central de Israel. Nem todos os Judeus concordavam com essa avaliação (os Essênios, por exemplo, consideravam o aparato do Templo como corrupto e provavelmente teriam simpatizado com Jesus aqui), mas Jesus dizer que ele seria destruído, e por pagãos, teria sido profundamente ofensivo para muitos Judeus, especialmente para os que consideravam o Templo como uma segurança contra a invasão pagã.

Também de Wright, The Resurrection of the son of God [A Ressurreição do filho de Deus], temos estas observações, oferecidas por um leitor, com suas próprias observações:

“Precisamente com base nos textos chave de Salmos, Isaías, Daniel e outros, os primeiros Cristãos declararam que Jesus era o Senhor, de tal forma a implicar, por diversas vezes, que César não era … O tema é forte em Paulo, embora grandemente ignorado até recentemente. Romanos 1:3-5 declara o ‘evangelho’ de que Jesus é o real e poderoso ‘filho de Deus’ a quem o mundo deve lealdade; Romanos 1:16-17 declara que neste ‘evangelho’ devem ser encontradas soteria e dikaiosune. Todos os elementos nesta fórmula dupla ecoa e faz paródia com coisas que eram ditas na ideologia imperial, e o culto imperial emergente no tempo. Na outra extremidade da exposição teológica da carta (15:12), Paulo cita Isaías 11:10: O Messias Davídico é o verdadeiro Senhor do mundo, e nele as nações terão esperanças” (pp 568-569).

Wright continua a listar outras passagens Paulinas como Filipenses 2:6-11, 1 Coríntios 15:20-28, e Tessalonicenses 4:15-17 que fala de Jesus de maneira a fazer paralelos com César. Ele também nota:

“E isso não está confinado em Paulo. O Jesus Ressuscitado de Mateus declara que toda a autoridade nos Céus e na Terra é agora dada a ele.”

Também,

“O evangelho de Jesus como rei dos Judeus é posto, por implicação, em tensão com o reinado de Herodes como rei dos Judeus, até a morte súbita de Herodes no capítulo 12 [de Atos]; a partir daí, o evangelho de Jesus como Senhor do mundo é posto em tensão com o reinado de César como senhor do mundo, uma tensão que vem a tona em [Atos] 17:7 e permanece latente na declaração sugestiva, mas poderosa, na passagem de fechamento, com Paulo em Roma falando do Reino do Deus verdadeiro e a Soberania do próprio Jesus … Toda esta linha de pensamento, do Reino do Deus de Israel inaugurado pela Soberania de Jesus e agora confrontando os reinos do mundo com um chamado rival por lealdade, encontra a expressão clássica um Século depois de Paulo, na famosa e deliberadamente subversiva declaração de Policarpo: ‘Como eu posso blasfemar contra o rei que me salvou?’ César era o rei, o salvador, e seu ‘caráter’ exigia um juramento; Policarpo declarou que chamar César dessas coisas seria cometer blasfêmia contra o verdadeiro rei divino e salvador” (pp. 569-570).

Wright nota, através de passagens como Romanos 13:1-7, que os Cristãos eram comandados a respeitar as autoridades governamentais. Entretanto, ele continua dizendo:

“Nossa forma particular, ocidental e moderna de expor estes assuntos, implicando que alguém deve ser ou um revolucionário ou um conservador concessor, tornou mais difícil, e não mais fácil, para chegarmos a uma compreensão histórica de como os primeiros Cristãos viam o assunto. O comando para respeitar as autoridades não corta o nervo do desafio político do Evangelho. Não significa que a ‘Soberania’ de Jesus é reduzida a uma questão puramente ‘espiritual’. Se esse fosse o caso, as grandes perseguições dos primeiros três Séculos poderiam ter sido grandemente evitadas. Este, como vimos no capítulo anterior, foi o caminho percorrido pelo gnosticismo” (p. 570).

Então a questão a se perguntar é: “Por que os primeiros Cristãos mantêm uma resistência política tão ousada como parte de seu sistema de crenças estabelecido?” Eles devem ter realmente acreditado que Jesus era o Senhor deste mundo, e que sua ressurreição provou isso. Wright conclui:

“Esta crença subversiva na Soberania de Jesus, superior ou contrária àquela de César, foi mantida, contrariando o fato de que César tinha demonstrado seu poder superior de forma óbvia, crucificando Jesus. Mas a coisa realmente extraordinária é que esta crença era mantida por um grupo pequeno que, pelo menos pelas primeiras duas ou terceiras gerações dificilmente poderia ter organizado um tumulto em uma vila, muito menos uma revolução em um império. Contudo, eles persistiram contra todas as dificuldades, atraindo a atenção indesejada das autoridades devido ao poder da mensagem, e a visão de mundo e o estilo de vida que ela gerava e mantinha. E sempre que voltamos aos textos chave que evidenciam o motivo de eles terem persistido em uma crença tão improvável e perigosa, a resposta era: Porque Jesus de Nazaré ressuscitou. E isto nos incita a perguntar mais uma vez: Por que eles alegavam isso?” (p. 570).

Um paralelo interessante com os tempos modernos pode ser encontrado aqui.

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