Jesus: A Sabedoria de Deus

março 22, 2008 às 6:10 pm | Publicado em Blogroll, Uncategorized | Deixe um comentário

Jesus: A Sabedoria de Deus

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Por: James Patrick Holdinghttp://www.tektonics.org

 

O artigo original pode ser encontrado aqui: http://www.tektonics.org/jesusclaims/trinitydefense.html

AVISO IMPORTANTE:

De acordo com o autor do artigo: Apesar de os apócrifos não serem inspirados, eles fazem parte do contexto informacional do Novo Testamento, e podem, algumas vezes, ser úteis no entendimento dele, assim como outros trabalhos, como os de Josefo, historiador Judeu.

Note que, quando se faz alusão a algo que também está presente em um apócrifo, isso não significa que Jesus ou os outros autores do Novo Testamento estão citando os apócrifos como sendo escrituras inspiradas. Para saber mais sobre os apócrifos, ver:

http://crentinho.wordpress.com/2007/04/13/icar-os-apocrifos/

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A fim de apoiar a visão Cristã tradicional da relação de Jesus com o Pai, devemos entender o contexto para certas afirmações sobre a natureza e identidade de Jesus no Novo Testamento. Nosso argumento geral pode ser delineado da seguinte forma:

Jesus, como a Palavra e Sabedoria de Deus, foi e é um atributo eterno do Deus Pai. Da mesma forma que as nossas palavras e pensamentos vêm até nós e não podem ser separadas de nós, Jesus não pode ser completamente separado do Pai. Mas há mais a explicar, em relação à distinção entre subordinação funcional e igualdade ontológica. Falamos de Cristo como a “Palavra” de Deus, A “fala” de Deus em forma viva. No pensamento dos antigos Hebreus e do Antigo Oriente Médio – AOM, as palavras não eram meros sons ou letras em uma página; as palavras eram entidades que “tinham uma existência independente e que, na verdade, faziam coisas”. Por todo o Velho Testamento e na literatura intertestamental Judaica da Sabedoria, enfatiza-se o poder da palavra falada por Deus (Salmos 33:6 e 107:20; Isaías 55:11; Jeremias 23:29; 2 Esdras 6:38; Sabedoria 9:1. “O Judaísmo entendia a Palavra de Deus, depois de pronunciada, como quase tendo poderes e substância autônomos; Como sendo, na verdade, ‘uma realidade concreta, uma causa real”. [Richard N. Longenecker, The Christology of Early Jewish Christianity. p. 145.]. Porém uma palavra não precisava ser pronunciada ou escrita para ser viva. Uma palavra era definida como “uma unidade articulada de pensamento, capaz de expressão inteligível” [C.H. Dodd, Interpretation of the Fourth Gospel. p. 263] (Portanto, não se pode argumentar que Cristo passou a existir como a Palavra somente “após” ser “pronunciado” por Deus. Alguns dos apologistas da Igreja do Século II seguiram uma linha de pensamento semelhante, supondo que Cristo, a Palavra, seria um potencial não realizado dentro da mente do Pai antes da Criação). Isto está de acordo com a identidade de Cristo como a Palavra viva de Deus, e aponta para sua subordinação funcional (assim como as nossas palavras e discursos são subordinados a nós) e sua igualdade ontológica com o Pai (assim como as nossas palavras representam nossa autoridade e nossa natureza essencial). Uma subordinação em papéis é aceitável dentro dos parâmetros Bíblicos e dos credos, mas uma subordinação em posição ou essência (o aspecto “ontológico”) é uma visão herética chamada subordinacionismo.

Contexto: O contexto da Cristologia da Sabedoria é encontrado no conceito de hipóstase. E o que é hipóstase? De um modo geral, é uma quase-personificação dos atributos apropriados de uma divindade, ocupando uma posição intermediária entre as personalidades e os seres abstratos. Aqui estão alguns exemplos do AOM:

  • Hu e Sia, na Tradição Egípcia, a palavra criativa e o entendimento de Re-Atum.
  • Ma’at, também egípcio, uma personificação da ordem correta na natureza e na sociedade, uma criação de Re.
  • Mesaru e Kettu, ou Retidão e Justiça, hipóstases Acadianas concebidas como qualidades do deus-sol, ou como presentes concedidos por ele, ou algumas vezes como seres pessoais ou divindades independentes.
  • A palavra divina, que procede através da natureza do fôlego e do vento, na literatura suméria e acadiana.

Sabedoria em Provérbios 8, em Siraque [Eclesiástico] e Sabedoria de Salomão, e no Logos de Philo: Todos se encaixam como uma luva nesses exemplos. Vejamos algumas citações, começando com Provérbios 8:

Provérbios 8:22-31 - O Senhor Deus me criou antes de tudo, antes das suas obras mais antigas. Eu fui formada há muito tempo, no começo, antes do princípio do mundo. Nasci antes dos oceanos quando ainda não havia fontes de água. Nasci antes das montanhas, antes de os morros serem colocados nos seus lugares, antes de Deus ter feito a terra e os seus campos ou mesmo o primeiro punhado de terra. Eu estava lá quando ele colocou o céu no seu lugar e estendeu o horizonte sobre o oceano.

Estava lá quando ele pôs as nuvens no céu e abriu as fontes do mar, e quando ordenou às águas que não subissem além do que ele havia permitido. Eu estava lá quando ele colocou os alicerces da Terra. Estava ao seu lado como arquiteto e era a sua fonte diária de alegria, sempre feliz na sua presença – feliz com o mundo e contente com a raça humana.

Esta é uma das várias passagens do Velho Testamento (ver Salmos 58:10, 107:42 e Jó 11:14) nas quais as qualidades abstratas são personificadas seguindo uma tradição de personificação do AOM [Dered Kidner, The Wisdom of Proverbs, Job and Ecclesiastes. p. 44.]. Aqui e em outras partes do livro de Provérbios, a Sabedoria “faz reivindicações para si, que em outros locais são feitas apenas por Deus, ou para Deus”. O verbo usado pela Sabedoria para chamar atenção para as suas mensagens é o mesmo usado pelos profetas para chamar as pessoas a se arrependerem e retornarem para Deus [R.N. Whybray, Proverbs. p. 44.]. O discurso feito pela Sabedoria neste capítulo é “uma auto-recomendação prolongada na qual (a Sabedoria) ostenta seu poder, autoridade e os dons que ela é capaz de conceder”, seguindo um gênero literário do AOM no qual uma divindade se vangloria. “Pretende-se que a Sabedoria seja entendida como um atributo ou servo celestial de Jeová, o Deus único, para quem ele delegou certos poderes em relação às suas relações com a humanidade”. Finalmente, para completar o quadro, Provérbios 2:6 nos diz: É o Senhor quem dá sabedoria; a sabedoria e o entendimento vêm dele. Deus é a fonte da Sabedoria; A Sabedoria é uma das características e atributos de Deus. Bruce Vawter argumenta que Provérbios 8 descreve a sabedoria como uma divindade separada que Jeová “adquiriu”  [Proverbs 8:22: Wisdom and Creation, Journal of Biblical Literature 99/2 (1980): 205-216.]. Eu respondo como Hurtado “que essa linguagem de personificação [utilizada no Judaísmo de forma geral] não necessariamente reflete uma visão destes atributos divinos como entidades independentes juntas de Deus”. Estas personificações “devem ser entendidas dentro do contexto da preocupação Judaica sobre a unicidade de Deus, a idéia religiosa mais dominante do Judaísmo antigo”. Sendo assim, ele considera alegações como as de Vawter, de que a Sabedoria aqui é descrita como uma “divindade independente”, como algo “simplesmente sem comprovação e que traz para essas passagens, significados nunca pretendidos pelos escritores” [Larry W. Hurtado, One God, One Lord: Early Christian Devotion and Ancient Jewish Monotheism. pp. 46-47]. Clique aqui para ver mais sobre esse verbo.

Agora examinaremos algumas especulações Judaicas que estão de acordo com o status quase pessoal da “Sabedoria de Deus”. Então seremos capazes de ver uma continuidade entre a literatura intertestamental e o Novo Testamento que define a natureza da relação entre Deus Pai e Jesus Cristo. Dunn propõe de forma sucinta: “Aquilo que o Judaísmo pré-Cristianismo dizia da Sabedoria e Philo dizia sobre o Logos, Paulo e os outros diziam de Jesus. O papel que Provérbios, Siraque, etc. atribuem à Sabedoria, esses primeiros Cristãos atribuíam a Jesus” [James D. G. Dunn, Christology in the Making. p. 167.]. Essa concepção da Sabedoria se compara à uma explicação menos comum e geral do Judaísmo sobre como um Deus transcendente poderia fazer parte de uma Criação temporal. O Targum Aramaico resolveu este problema ao equacionar Deus com sua Palavra: Assim, no Targum, em Êxodo 19:17, ao invés de dizer que as pessoas saíram para se encontrar com Deus, o texto diz que as pessoas saíram para se encontrar com a Palavra de Deus, ou Memra. Esse termo tornou-se uma perífrase para Deus; mas se poderia ter sido como uma pessoa separada, como no Trinitarianismo Cristão, é questão de debate. O risco envolvido em se fazer da Sabedoria/Palavra uma divindade independente era grande demais para os rabinos especularem mais, mas os Cristãos encontraram na tradição da Sabedoria uma concepção categórica ideal para posicionar a pessoa de Jesus. N. T. Wright observa [em Who was Jesus? (pp 48-49)] que o monoteísmo Judeu “nunca foi, na literatura do período Judaico crucial, uma análise da essência interna de Deus, um tipo de relato numérico sobre como Deus seria por dentro, por assim dizer”. Ao invés disso, foi “sempre afirmações polêmicas direcionadas para as nações pagãs”. Os rabinos do tempo de Jesus não tinham dificuldades em separar os aspectos da personalidade de Deus – Sua Sabedoria, sua Lei (Torá), sua presença (Shekinah) e sua palavra (Memra), por exemplo. Essa divisão tinha o propósito filosófico de “contornar o problema de como falar apropriadamente sobre o único Deus verdadeiro, que está acima do mundo criado mas também ativo dentro dele”.

De forma similar, Brad Young escreve:

Dentro do Judaísmo, a “hipostatização” da Sabedoria ou da Tora não parecia minar o monoteísmo, visto que, no fim das contas ela era apenas um tipo de perífrase utilizada para driblar a implicação de um contato direto entre o Deus transcendente e a criação.

Esse conceito, Young continua, não desafiava a “máxima originalidade e soberania” de Deus de forma alguma. Daí a idéia do Cristianismo identificar uma pessoa real de tal forma que não criasse um problema para o monoteísmo. E o conceito de trindade não era inteiramente estranho para o Judaísmo. O’Neill [J. C. O'Neill, Who Did Jesus Think He Was? p. 94] relata as palavras de Philo, historiador Judeu contemporâneo de Jesus, expondo sobre os três homens que vieram visitar Abraão em Gênesis 18:2, os quais presumia-se que eram figuras divinas:

…o do meio é o Pai do Universo, que nas Escrituras Sagradas é chamado pelo seu nome apropriado, Eu sou quem sou; e os seres ao lado são os poderes mais antigos que estão sempre próximos ao Deus vivo, um é chamado poder criativo, e o outro, seu poder de rei.

Ninguém questionaria que Philo era um monoteísta Judeu; contudo, aqui temos uma exposição perfeitamente compatível com a Trindade: O Pai, o Poder Criador (o Filho, ou a Palavra), e o Poder de Rei (o Espírito Santo). De forma similar, lemos no apócrifo Baruque 4:22:

Do Eterno espero a vossa libertação, espero que do Santo me venha a alegria, pela misericórdia que breve vos será concedida pelo Eterno, vosso Salvador.

 

Agora veremos passagens lidando diretamente com a Sabedoria.

Siraque 1:1-4 - Toda a sabedoria vem do Senhor Deus, ela sempre esteve com ele. Ela existe antes de todos os séculos. Quem pode contar os grãos de areia do mar, as gotas de chuva, os dias do tempo? Quem pode medir a altura do céu, a extensão da terra, a profundidade do abismo? Quem pode penetrar a sabedoria divina, anterior a tudo? A sabedoria foi criada antes de todas as coisas, a inteligência prudente existe antes dos séculos! [Nota do tradutor: Caso você também discorde da opinião do autor, não se preocupe, os apócrifos, como já ressaltado, não são inspirados, inerrantes e canônicos.]

O livro de Siraque foi escrito por Jesus filho de Siraque cerca de 100 a.C. Ele descreve a Sabedoria como tendo sido “criada antes de todas as coisas”, como sendo “proveniente do eterno” e como comparável aos “dias da eternidade”. Nisto estamos em harmonia com a visão Trinitária de Jesus, como criado ou gerado pelo Pai de forma eterna, quer dizer, que encontra sua fonte no Pai e não possui existência separado dele, e também tendo existido eternamente assim como Deus. Siraque escreve também:

Siraque 24:1-5 – A sabedoria faz o seu próprio elogio, honra-se em Deus, gloria-se no meio do seu povo. Ela abre a boca na assembléia do Altíssimo, gloria-se diante dos exércitos do Senhor, é exaltada no meio do seu povo, e admirada na assembléia santa. Entre a multidão dos eleitos, recebe louvores, e bênçãos entre os abençoados de Deus. Ela diz: Saí da boca do Altíssimo; nasci antes de toda criatura.

Este é outro discurso de auto-glorificação, do tipo encontrado em Provérbios, só que desta vez, o discurso acontece em uma corte celestial – um local onde somente Deus ofereceria auto-glorificação. Sabedoria diz de si: “Eu vim da boca do altíssimo” (a “Palavra” de Deus) e “meu trono era no pilar da nuvem” – uma alusão ao sinal da presença divina no Velho Testamento. Sabedoria também diz que “rodeava o arco do Céu e andava nas profundezas do abismo … governava as ondas do mar e sobre toda a terra, e sobre todas as pessoas e nações”. No livro de Jó (12, 28), essas coisas são o que Deus pergunta se Jó pode fazer, com a implicação de que somente Deus pode fazê-las.

Finalmente, Siraque diz (42:18-21): Ele [Deus] sonda o abismo e o coração humano, e penetra os seus pensamentos mais sutis, pois o Senhor conhece tudo o que se pode saber. Ele vê os sinais dos tempos futuros, anuncia o passado e o porvir, descobre os vestígios das coisas ocultas. Nenhum pensamento lhe escapa, nenhum fato se esconde a seus olhos. Ele enalteceu as maravilhas de sua sabedoria, ele é antes de todos os séculos e será eternamente. A Sabedoria é um atributo de Deus e é co-eterna com Ele – de outra forma, a Sabedoria é uma coisa “adicionada” a Ele, ou alguém o “instruiu”. Bauckham faz uma observação sobre uma passagem mais recente: “2 Enoque 33:4, ecoando Deutero-Isaías (40:13) diz que Deus não tinha um conselheiro em seu trabalho criativo, mas que sua Sabedoria era a sua conselheira. O significado claro é que Deus não tinha ninguém para aconselhá-lo. Sua Sabedoria, que é intrínseca à sua identidade, e não alguma outra pessoa, o aconselhou” [Richard Bauckham, God Crucified: Monotheism and Christology in the New Testament , p. 21].

Sabedoria de Salomão: Neste trabalho intertestamental escrito como sendo a personalidade de Salomão, a Sabedoria é descrita como o artífice de todas as coisas (7:21-23), como um sopro do poder de Deus, uma irradiação límpida da glória do Todo-poderoso (7:25), e como a “imagem” (eikon – sobre o siginificado deste termo, veja o Capítulo 1 do meu livro The Mormon Defenders) da bondade de Deus (7:26), capaz de fazer e renovar todas as coisas. “Sabedoria” também foi antevista como compartilhando o trono de Deus, tendo estado presente com Deus desde a eternidade, e imaginada como procedendo de Deus. A Sabedoria e a Palavra de Deus são igualadas em Sabedoria 9:1-4 – Deus de nossos pais, e Senhor de misericórdia, que todas as coisas criastes pela vossa palavra, e que, por vossa sabedoria, formastes o homem para ser o senhor de todas as vossas criaturas, governar o mundo na santidade e na justiça, e proferir seu julgamento na retidão de sua alma, dai-me a Sabedoria que partilha do vosso trono, e não me rejeiteis como indigno de ser um de vossos filhos. A Sabedoria também é vista como sendo capaz de realizar milagres, como a abertura do Mar Vermelho (10:18-19).

Philo. O filósofo Judeu foi um contemporâneo de Jesus e autor de vários trabalhos históricos e filosóficos. Philo chama a Sabedoria (a qual ele também se refere como Logos) de “imagem (eikon) de Deus”, ele se refere à Sabedoria de Deus como aquilo através do qual o Universo veio a existir; e descreve a Sabedoria como “o filho primogênito” de Deus; nunca gerado a partir de outra coisa, como Deus, ou gerado como os homens; como a Luz e como “a sombra de Deus”. Ele considerava o Logos como um dos vários atributos de Deus, aos quais ele se referia de forma coletiva como “poderes”, sendo o Logos o poder principal na hierarquia.

Tendo concluído nossa breve pesquisa sobre a literatura intertestamental Judaica, é necessário fazer algumas observações antes de procedermos para as evidências do Novo Testamento. Como mostraremos, o que os escritores acima falavam da Sabedoria, os autores do Novo Testamento também diziam sobre Cristo. Mas nós não estamos argumentando acerca de uma dependência direta de Philo ou qualquer outro escritor por parte de Paulo ou João. Ao invés disso, estamos estabelecendo que havia no Judaísmo certas idéias sobre a Sabedoria, com as quais os escritores do Novo Testamento trabalharam, e que, como Hurtado indica, “o Judaísmo antigo fornecia aos primeiros Cristãos uma categoria conceitual crucial” (44, 46) que era aplicada ao Jesus exaltado e ressurreto. Agora iremos mostrar que Jesus se identificava com a Sabedoria, e, portanto, com suas qualidades, incluindo a co-eternidade, subordinação funcional e igualdade ontológica com Deus.

Mateus 8:20, Lucas 9:58 – As raposas têm suas covas, e os pássaros, os seus ninhos. Mas o Filho do Homem não tem onde descansar.

Witherington nota que a imagem deste ditado “havia sido utilizada antes, com a Sabedoria não tendo lugar para habitar até que Deus lhe determinasse um (cf. Siraque 24:6-7 e 1 Enoque 42:2), com Enoque falando da rejeição da Sabedoria (‘mas ela não encontrou lugar para habitar’)”. Witherington também nota o paralelo em Siraque 36:28 – Quem confia naquele que não tem morada, e naquele que passa a noite onde quer que a noite o surpreenda? Ou que vagueia de cidade em cidade como um ladrão sempre prestes a fugir? O uso dessas alusões “sugere que Jesus antevê e articula sua experiência levando em consideração as tradições sobre a Sabedoria…” (Jesus Quest. p. 188).

Mateus 11:16-19, Lucas 7:31-32 – Mas com quem posso comparar as pessoas de hoje? São como crianças sentadas na praça. Um grupo grita para o outro: “Nós tocamos músicas de casamento, mas vocês não dançaram! Cantamos músicas de enterro, mas vocês não choraram!” João Batista jejua e não bebe vinho, e todos dizem: “Ele está dominado por um demônio.” O Filho do Homem come e bebe, e todos dizem: “Vejam! Este homem é comilão e beberrão! É amigo dos cobradores de impostos e de outras pessoas de má fama.” Porém é pelos seus resultados que a sabedoria de Deus mostra que é verdadeira.

Provérbios 1:24-28 – Eu chamei e convidei, mas vocês não me ouviram e não me deram atenção. Vocês rejeitaram todos os meus conselhos e não quiseram que eu os corrigisse. Assim, quando estiverem em dificuldades, eu rirei; e, quando o terror chegar, eu caçoarei de vocês. Zombarei de vocês quando o terror vier como uma tempestade, trazendo fortes ventos de dificuldades. Eu rirei quando estiverem passando por sofrimentos e aflições. Então vocês me chamarão, mas eu, a Sabedoria, não responderei. Vão procurar por toda parte, porém não me encontrarão.

Estes trechos fornecem algumas pistas importantes quando se tem os dados sociais em mãos, e adicionam o fator das refeições comunais de Jesus com a “gentalha”. Witherington nota passagens como Provérbios 9:1-6, “que fala de um banquete organizado pela própria Sabedoria, onde ela convida hóspedes muito incomuns à mesa” a fim de ajudá-los a adquirir sabedoria. Witherington, portanto, argumenta que Jesus ceou com pecadores e cobradores de impostos porque estava “representando o papel de Sabedoria” (187-188).

Mateus 11:29-30 – Sejam meus seguidores e aprendam comigo porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso. Os deveres que eu exijo de vocês são fáceis, e a carga que eu ponho sobre vocês é leve.

Siraque 6:19-31 – Vai ao encontro dela, como aquele que lavra e semeia, espera pacientemente seus excelentes frutos, terás alguma pena em cultivá-la, mas, em breve, comerás os seus frutos. Quanto a sabedoria é amarga para os ignorantes! O insensato não permanecerá junto a ela. Ela lhes será como uma pesada pedra de provação, eles não tardarão a desfazer-se dela. Pois a sabedoria que instrui justifica o seu nome, não se manifesta a muitos; mas, naqueles que a conhecem, persevera, até (tê-los levado) à presença de Deus. Escuta, meu filho, recebe um sábio conselho, não rejeites minha advertência. Mete os teus pés nos seus grilhões, e teu pescoço em suas correntes. Abaixa teu ombro para carregá-la, não sejas impaciente em suportar seus liames. Vem a ela com todo o teu coração. Guarda seus caminhos com todas as tuas forças. Segue-lhe os passos e ela se dará a conhecer; quando a tiveres abraçado, não a deixes. Pois acharás finalmente nela o teu repouso. E ela transformar-se-á para ti em um motivo de alegria. Seus grilhões ser-te-ão uma proteção, um firme apoio; suas correntes te serão um adorno glorioso; pois nela há uma beleza que dá vida, e seus liames são ligaduras que curam.

Siraque 51:34 – Dobrai a cabeça sob o jugo, receba vossa alma a instrução, porque perto se pode encontrá-la.

Jesus está claramente fazendo alusões às passagens no popular livro de Siraque. Seus ouvintes teriam reconhecido que ele estava associando a si mesmo com a Sabedoria.

Mateus 12:42; Lucas 11:31 – No Dia do Juízo a Rainha de Sabá vai se levantar e acusar vocês, pois ela veio de muito longe para ouvir os sábios ensinamentos de Salomão. E eu afirmo que o que está aqui é mais importante do que Salomão.

Apontando a associação de Salomão com a literatura da Sabedoria, Witherington escreve (186, 192):

Se é verdade que Jesus reivindicou que algo maior que Salomão estava presente em seu ministério, devemos nos perguntar o que poderia ser … Certamente a resposta mais direta seria que a Sabedoria veio em pessoa.

Mateus 23:34 – Pois eu lhes mandarei profetas, homens sábios e mestres. Vocês vão matar alguns, crucificar outros, chicotear ainda outros nas sinagogas e persegui-los de cidade em cidade.

Lucas 11:49 – Por isso a Sabedoria de Deus disse: “Mandarei para eles profetas e mensageiros, e eles matarão alguns e perseguirão outros.”

Na versão de Mateus, Jesus diz “eu lhes mandarei profetas”, mas Lucas especificamente identifica Jesus com a Sabedoria.

O Evangelho de João identifica Jesus com a Sabedoria de várias formas. Jesus fala em longos discursos característicos da Sabedoria (Provérbios 8; Siraque 24; Sabedoria de Salomão 1-11). A ênfase de João nos “sinais” espelha a de Sabedoria de Salomão, e João utiliza a mesma palavra Grega para eles (semeion). Finalmente, o vasto uso do termo “Pai” (115 vezes) se compara com a ênfase nesse título na recente literatura da Sabedoria.

João 1:1-3 – Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus.  Desde o princípio, a Palavra estava com Deus.  Por meio da Palavra, Deus fez todas as coisas, e nada do que existe foi feito sem ela.

O prólogo do Evangelho de João identifica Jesus de forma precisa com a Sabedoria, descrevendo o papel Cristológico do Logos (1:3), seu papel como a base do conhecimento humano (1:9) e como o mediador da Revelação Especial (1:14) – os três papéis do Logos/Sabedoria pré-existente. Ao chamar Jesus de Logos, João estava afirmando a eternalidade e a união ontológica de Jesus com o Pai, ao conectá-lo com a tradição da Sabedoria.

Agora considere estes paralelos com o prólogo de João e a literatura da Sabedoria:

João 1:1 – Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus.

Sabedoria de Salomão 9:9 – Mas, ao lado de vós está a Sabedoria que conhece vossas obras; ela estava presente quando fizestes o mundo, ela sabe o que vos é agradável, e o que se conforma às vossas ordens.

João 1:4 – A Palavra era a fonte da vida, e essa vida trouxe a luz para todas as pessoas.

Provérbios 8:35 – Pois quem me encontra encontra a vida, e o SENHOR Deus ficará contente com ele.

João 1:11 – Aquele que é a Palavra veio para o seu próprio país, mas o seu povo não o recebeu.

1 Enoque 42:2 – A Sabeoria procurou habitar dentre as crianças dos homens, e não encontrou lugar.

João 1:14 – A Palavra se tornou um ser humano e morou entre nós, cheia de amor e de verdade. E nós vimos a revelação da sua natureza divina, natureza que ele recebeu como Filho único do Pai.

Siraque 24:15 – Assim fui firmada em Sião; repousei na cidade santa, e em Jerusalém está a sede do meu poder.

João 6:27 – Não trabalhem a fim de conseguir a comida que se estraga, mas a fim de conseguir a comida que dura para a vida eterna. O Filho do Homem dará essa comida a vocês porque Deus, o Pai, deu provas de que ele tem autoridade.

Sabedoria de Salomão 16:26 – Para que os filhos que vós amais, Senhor, aprendessem que não são os frutos da terra que alimentam o homem, mas é vossa palavra que conserva em vida aqueles que crêem em vós.

João 14:15 – Jesus continuou: – Se vocês me amam, obedeçam aos meus mandamentos.

Sabedoria de Salomão 6:18 – Mas amá-la é obedecer às suas leis, e obedecer às suas leis é a garantia da imortalidade.

No princípio era a Palavra (João 1:1).

A Sabedoria estava no princípio (Provérbios 8:22-23, Siraque 1:4, Sabedoria de Salomão 9:9).

A Palavra estava com Deus (João 1:1).

A Sabedoria estava com Deus (Provérbios 8:30, Siraque 1:1, Sabedoria 9:4).

A Palavra foi a co-criadora (João 1:1-3).

A Sabedoria foi a co-criadora (Provérbios 3:19 e 8:25, Isaías 7:21 e 9:1-2).

A Palavra provê luz (João 1:4-9).

A Sabedoria provê luz (Provérbios 8:22, Sabedoria 7:26 e 8:13, Siraque 4:12).

A Palavra como luz em contraste com as trevas (João 1:5).

A Sabedoria como luz em contraste com as trevas (Sabedoria 7:29-30).

A Palavra estava no mundo (João 1:10).

A Sabedoria estava no mundo (Sabedoria 8:1, Siraque 24:6).

A Palavra foi rejeitada por seu povo (João 1:11)

A Sabedoria foi rejeitada por seu povo (Siraque (15:7)

A Palavra foi recebida pelos fiéis (João 1:12).

A Sabedoria foi recebida pelos fiéis (Sabedoria 7:27).

Cristo é o pão da vida (João 6:35).

A Sabedoria é o pão ou substância da vida (Provérbios 9:5, Siraque 15:3, 24:21 e 29:21, Sabedoria 11:4).

Cristo é a luz do mundo (João 8:12).

A Sabedoria é luz (Sabedoria 7:26-30, 18:3-4).

Cristo é a porta por onde as ovelhas passam e o bom pastor (João 10:7-14).

A Sabedoria é a porta e o bom pastor (Provérbios 8:34-35, Sabedoria 7:25-27, 8:2-16, Siraque 24:19-22).

Cristo é vida (João 11:25)

A Sabedoria traz vida (Provérbios 3:16, 8:35, 9:11, Sabedoria 8:13)

Cristo é o caminho para a verdade (João 14:6)

A Sabedoria é o caminho (Provérbios 3:17, 8:32-34; Siraque 6:26)

As cartas de Paulo continuam a identificação de Jesus com a Sabedoria de Deus. 1 Coríntios 1:24-30 é o exemplo mais claro: Cristo é explicitamente identificado como “o poder de Deus e a Sabedoria de Deus”. Outros trechos relevantes:

Sabedoria 1:4 – A Sabedoria já existia antes de todas as coisas…

1 Coríntios 2:7 – …a Sabedoria que Deus predestinou antes das gerações…

Sabedoria 1:6 – Para quem foi revelada a raiz da sabedoria?

1 Coríntios 2:10 – Deus revelou essas coisas a nós…

Sabedoria 1:10 – …ele deu [sabedoria] àqueles que o amam.

1 Coríntios 2:9 – …a qual Deus preparou para aqueles que o amam.

Sabedoria 1:15 – [A Sabedoria] edificou um fundamento eterno dentre os homens…

1 Coríntios  3:10 – …como um arquiteto sábio, Eu estabeleci uma fundação…

Sabedoria 2:5 – O ouro é testado no fogo…

1 Coríntios 3:12-13 – E se alguém constrói sobre a fundação com ouro, prata, ou pedras preciosas…, isso será revelado pelo fogo.

Colossenses 1:15-18 – Ele, o primeiro Filho, é a revelação visível do Deus invisível; ele é superior a todas as coisas criadas. Pois, por meio dele, Deus criou tudo, no céu e na terra, tanto o que se vê como o que não se vê, inclusive todos os poderes espirituais, as forças, os governos e as autoridades. Por meio dele e para ele, Deus criou todo o Universo. Antes de tudo, ele já existia, e, por estarem unidas com ele, todas as coisas são conservadas em ordem e harmonia. Ele é a cabeça do corpo, que é a Igreja, e é ele quem dá vida ao corpo. Ele é o primeiro Filho, que foi ressuscitado para que somente ele tivesse o primeiro lugar em tudo.

Essa passagem é cheia de alusões à literatura da Sabedoria. Note os seguintes paralelos:

Colossenses 1:15 – ele é a revelação visível do Deus invisível…

Sabedoria de Salomão 7:26 – [A Sabedoria é] um espelho perfeito da obra de Deus, e uma imagem da sua bondade.

Colossenses 1:15 – o primeiro Filho.

Philo faz referência à Sabedoria como sendo “o primeiro Filho” e descendência de Deus. Para saber mais sobre esse assunto, clique aqui.

Colossenses 1:16 – Pois, por meio dele, Deus criou tudo…

Sabedoria 1:14 – Ele criou tudo para a existência…

Siraque 1:4 e Philo referem-se à Sabedoria como “a artesã mestre” da criação.

Colossenses 1:17 – Antes de tudo, ele já existia, e, por estarem unidas com ele, todas as coisas são conservadas em ordem e harmonia.

Sabedoria 1:7 – …aquilo que une todas as coisas…

O livro de Hebreus, embora nunca identifique Jesus diretamente como Sabedoria, indica uma equivalência. Em Hebreus 1:3, o termo Grego raro apaygasma é utilizado para descrever Jesus como “brilho da glória de Deus”, assim como a palavra é utilizada em Sabedoria 7:25-26 para descrever o resplendor da Sabedoria. Hebreus atribui a Jesus as mesmas funções que a literatura da Sabedoria Philônica/Alexandrina designavam à Sabedoria: Mediadora da revelação divina, agente e sustentador da criação, e reconciliador dos homens perante Deus (Sabedoria de Salomão 7:21-8:1). Para saber mais sobre essa palavra, clique aqui.

Hebreus também fala de Jesus o que Philo diz do Logos. Philo se referiu à Sabedoria como o “charakter da Palavra eterna”, da mesma forma que Hebreus utiliza esse termo se referindo a Jesus. Hebreus também “afirma a superioridade de Jesus sobre um grupo de classes e indivíduos que serviram às funções de mediadores no pensamento Alexandrino”, incluindo os anjos, Moisés, Melquisedeque e o sumo sacerdote. Finalmente, em Siraque 24:15, a Sabedoria, embora universal em escopo, graças a um decreto de Deus, repousa em Jerusalém e é considerada como tendo o papel sacerdotal: Assim fui firmada em Sião; repousei na cidade santa, e em Jerusalém está a sede do meu poder. Compare esta proclamação com a que é encontrada em Hebreus capítulos 3 a 10, descrevendo Cristo como nosso sumo sacerdote ministrando em um tabernáculo divino.

Adendos (em inglês):

Críticas das visões alternativas (em inglês):

Traduzido e adaptado por: Maximiliano Mendes.

Todas as citações Bíblicas foram retiradas da NTLH. As citações dos apócrifos são da tradução Ave Maria, exceto o trecho de Enoque, que é uma tradução livre feita por mim.

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